quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Quem pode entender os jovens?

Quando eu completei 15 anos a minha mãe perguntou o que eu gostaria de ganhar de presente.
Não sei se foi a falta de imaginação ou a consciência de que as finanças da família não andavam uma beleza, mas a resposta foi um simples: - Nada.
- Vamos comprar alguns salgadinhos e docinhos caso algum amigo vá te visitar.
- Não. Nem pensar.
A minha mãe argumentou, reclamou e finalmente cedeu.
Naquela época, ela ainda não sabia com quem estava lidando, mas descobriu na mesma noite.
- Mãe, eu não acredito que você “realmente” não comprou nada...
- Mas, filha...você disse que não queria nada.
- Eu pensei que você tentava me enganar, que estava organizando uma festa surpresa. E agora o que vou servir para os meus amigos?
A noite acabou em pizza, mas nada foi capaz de preencher o vazio no estômago da minha mãe ao ver os meus olhos tristonhos.
Como ela poderia imaginar naquela ocasião que eu era uma pessoa estranha, que ora diz não querendo dizer sim e ora diz nada querendo dizer tudo?
Se eu tinha os meus segredos, ela também tinha os dela. Eu não sabia, mas ela guardava no fundo do armário a capa da mulher maravilha para ser utilizada em momentos de extrema sensibilidade.
E foi assim, que ela organizou, no dia seguinte, lá na garagem de casa, uma festa surpresa para comemorar os meus 15 anos.
Eu fiquei tão emocionada... que até hoje quando conto essa história não consigo disfarçar o sorriso.
Eu só não poderia imaginar que 22 anos depois eu passaria por uma situação semelhante.
A minha filha completou esse mês 14 anos. – Filha, o que você vai querer ganhar de presente?
A resposta: Nada.
Como eu já tinha visto esse filme antes, não me resignei e saí para comprar alguns comes e bebes, liguei para a família e algumas colegas. Preparei uma pequena comemoração.
Chegou à noite, ela estava com um baita mau humor.
- Porque você está assim?
- Estou cansada, eu disse que não queria nada!
A única coisa com que ela parecia preocupada era em saber o que mudaria na vida dela dali para frente.
- Vou poder chegar mais tarde em casa? Posso ir para Ilhabela com os meus colegas? E para a praia de ônibus?
- Vou pensar. Não. Não.
- De que vale fazer 14 anos? Nada vai mudar. A cada resposta minha o mau humor dela só aumentava.
Quando os convidados chegaram, após cumprimentar todos com educação, ela subiu para o quarto.
- Eu tenho prova amanhã, preciso estudar.
Logo cantamos os parabéns para que ela pudesse se livrar de todos nós mais cedo.
Tudo levava a crer que a minha filha não era tão estranha quanto eu, até que um dia depois aconteceu um fato revelador.
A sua classe organizou uma festa do Halloween para arrecadar fundos para a formatura.
- Mãe, você não vai, por favor.
- Porque não? Eu prometo não invadir o seu espaço, vou ficar no meu quadrado (recepção).
- Vai parecer que eu tenho babá.
Mesmo assim, adivinhe: eu fui.
Fui até lá, trabalhei na recepção, fiquei com pés inchados.
No final da noite, esperava o mesmo mau humor, mas fui surpreendida por um lindo sorriso, daqueles que fazem qualquer coração de mãe bater bem alto.
Ela estava feliz por eu ter ficado ao seu lado!
É difícil entender a juventude..., às vezes a gente acerta, outras a gente erra feio.
Uma coisa eu aprendi: a história pode se repetir, mas o final sempre poderá surpreender.
E, desculpa filha, mas prefiro errar por excesso de amor ao invés de omissão. A sua mãe é assim, por sorte ou azar, isso você decide.