quarta-feira, 25 de abril de 2012

A pedrinha no sapato


Está tudo bem. Você tem um bom emprego, os seus filhos estão com boa saúde e o seu marido é um doce de criatura, que aguenta firma até mesmo quando a sua TPM está no grau máximo.
Mesmo assim você sente um vazio no peito, como se algo estivesse faltando. Mas, o que? Aí você conversa com a sua mãe, ela diz que é preciso aprender a dar valor ao que se tem e que a felicidade é apenas um momento e não dura muito.
A conversa faz todo o sentido, mas não faz o vazio desaparecer. E acrescenta a culpa. Afinal, “como pode” alguém que tem tudo não ser inteiramente feliz!

É possível? Ô se é.

A única coisa certa é que quando procuramos justificar a felicidade pelas coisas que possuímos: emprego, dinheiro, família, carro, casa, entre outros, parece que sempre vai faltar alguma coisa.
Essa falta, na minha opinião, é o resultado das nossas frustrações, dos sonhos que acalentamos e não realizamos por diversos motivos, até mesmo porque em determinados momentos deixaram de ser importantes.
Mas, quando pensamos que temos tudo que precisamos para ser felizes, nós lembramos daquilo que abrimos mão para chegar até ali. E aí vem o vazio, o sentimento de insatisfação.
Quando somos pequenos sonhamos grande. Eu, por exemplo, adorava vestir as roupas da minha mãe e fazer de conta que era uma jornalista famosa, que trabalhava em algum lugar da Europa, fazendo um trabalho essencial para a salvação do mundo.
Bem, isso não aconteceu. Sou jornalista, mas trabalho para o governo, sou funcionária pública. Nem de perto tão emocionante quanto os meus sonhos.
Mas, vamos combinar que isso não é o que de mais terrível poderia acontecer comigo. Mas, fala isso para o vazio que de vez em quando eu sinto dentro de mim.

- Quantas pessoas gostariam de estar no seu lugar?
- Pois é. Eu sei disso, o meu cérebro vive me recordando, mas nem sempre estou disposta a ouvi-lo.

No entanto, quando me deparo com uma situação extremamente dura e limitante, o vazio desaparece.
Eu estava pensando sobre isso e de repente me lembrei de uma época muito triste, quando a minha tia ficou internada no hospital para tratar de um câncer.
Ao visita-la encontrei pessoas debilitadas, com histórias de vida pra fazer qualquer um se ajoelhar e rezar.
Mas, ali, junto daquelas pessoas, eu não me senti insatisfeita com a vida. Pelo contrário, valorizei cada minuto como se fosse o último.
Também me lembro de ter lido várias histórias sobre os jornalistas que fazem cobertura de guerra e presenciam todo o tipo de horror e mesmo assim não conseguem viver longe daquilo.
Perdemos a graça para tudo, o mundo se torna cruel, a vida perde a cor, mas é só quando tudo perde o sentido, que encontramos a paz.

Você já se sentiu assim?

Isso não acontece com todo mundo. Algumas pessoas precisam de ajuda profissional para reaprender a confiar na vida. Outros se apegam a uma religião porque precisam se sentir seguros, que o chão está novamente sob os seus pés e que acima das suas cabeças tem uma luz superior e protetora. J
Já muitos se desesperam e se matam antes da poeira abaixar, consumindo drogas, descuidando do corpo e da alma.
Eu não conheço remédio para curar insatisfação. Eu acho que essa é uma busca individual.
No meu caso, busco descobrir quais são os meus valores essenciais e, sem culpa, respeitar os meus limites. O importante é não esperar a água bater na cintura para gritar por socorro, faça terapia, se apegue a religião, procure um curso de autoajuda, pratique um trabalho voluntário, tente lembrar aonde você se perdeu e preencha o vazio no seu peito antes que ele se transforme no maior buraco do mundo.
Você deve ter coisa mais importante para fazer do que competir com a cidade de Mirna, na Sibéria, pois é lá que está o maior buraco de todos. Você e Mirna? Não mesmo.