quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Qual é a sua crença?

Quando estava no ensino médio eu tinha uma professora de português famosa por economizar sorrisos. Ela era muito séria, especialmente quando se tratava de redação.
Nem preciso dizer que eu adorava esse jeito dela, apesar de às vezes interpretar como mesquinho, mas no geral achava que a professora levava a sério o ofício de escrever e respeitava. Em suas aulas, eu me desafiava a ser cada vez melhor.
Por isso, tentava ser criativa e contar histórias de maneiras diferentes.
A minha vida estava boa até o dia em que a professora resolveu criticar o meu texto. Ela fez um comentário mais ou menos assim:



“- Não entendi o que você quis dizer, está confuso”.

Pensando nisso hoje, com os meus anos bem vividos, foi apenas um comentário. Nada ofensivo. Mas, doeu tão fundo em mim naquela época que simplesmente não conseguia mais escrever.
Quando ela entrava na sala e passava um tema para a redação, todas as ideias fugiam desesperadas da minha mente.
Não era pirraça, nem nada parecido. Era simplesmente o medo de desapontá-la de novo. Para evitar esse aborrecimento para nós duas, eu parei de pensar com a minha cabeça para tentar desvendar a dela.

- O que a professora quer que eu escreva? O que ela pensa? O que ela gosta?

Conclusão: eu travava.
Fiquei perdida entre as linhas em branco do papel, que na época construíram um labirinto na minha mente. Ela entrava na sala, eu me sentia confusa.
Eu acho que consegui disfarçar o meu drama, pois ela nunca perguntou o motivo da mudança do meu entusiasmo para a falta de motivação. Talvez não tenha se importado ou colocou na conta da adolescência.
O fato é que não só superei essa situação, como faço da escrita o meu ofício e a minha melhor companheira.
Mas, porque naquela época eu fiquei tão abalada com o comentário da professora? Talvez porque acreditasse mais nela do que em mim.
O que ela falou, de um jeito impensado, tocou profundamente no meu coração porque eu também não acreditava que pudesse escrever um texto a altura das suas exigências. Eu não confiava no meu potencial.
Todos nós sabemos que a felicidade não pode estar condicionada ao outro, caso contrário vivemos em uma montanha russa sentimental. Mesmo assim, vira e mexe esperamos que o outro nos faça feliz, uma espécie de jogo de uma mente masoquista, daquele tipo que sente prazer com a dor.
Quando o outro sorri ou elogia, a gente fica feliz, mas se ele acorda com o ovo virado ou irritado, nós nos sentimos péssimos.
Na minha opinião, o equilíbrio só é possível quando paramos de pensar no que o outro vai achar disso ou daquilo, o que nem sempre é fácil, mas é possível.
Alguns anos depois do que ocorreu na sala de aula, eu já cursava a faculdade de jornalismo e arranjei um emprego em uma rádio AM em São Paulo. Eu comecei a trabalhar como rádio escuta, mas insistia em escrever alguns textos.
Os textos eram mostrados para o meu diretor (Celso, você lembra disso?), que não economizava na bronca quando percebia um erro de gramática ou uma frase sem sentido, quase sempre aos gritos.
Alguns dias, eu chegava de manhã na redação e encontrava os textos riscados com caneta vermelha e colados na parede, onde todos podiam ler.
Uma situação que para alguns poderia ser humilhante, mas não me incomodava e assim eu ficava cada vez melhor.
No final, o diretor me convidou para assumir o cargo de redatora e eu aceitei com muito orgulho.
Mas, porque eu não me senti desmotivada ou com medo como aconteceu no tempo da escola?
Porque as minhas crenças eram outras. Eu tinha passado na faculdade, conquistado o meu primeiro emprego e estava muito feliz com as minhas escolhas. Ou seja, a minha autoestima estava lá no alto.
E naquela época eu já tinha maturidade para entender que não é porque alguém possui um cargo de destaque, é mais velho, rico ou famoso que estará sempre certo sobre tudo. Porque ninguém me conhece melhor do que eu.
Posso dizer que passei a acreditar mais em mim e a opinião do outro passou a não ser levada tão a sério.
Claro, que dou algumas escorregadas e algumas vezes eu sofro, me sinto injustiçada, com dó de mim.

- Ai, ai ,ai, ninguém me entende, ninguém me ama...

Eu gosto de ser elogiada, mas tento não fazer disso a minha droga. Não quero ser uma viciada em aprovação.