segunda-feira, 28 de maio de 2012

O pneu furado


Eles tinham um casamento de causar inveja as carolas da igreja.

Mas, isso era o que pensavam os outros.
Dentro de casa a coisa era diferente. A paz era mantida por um pacto de silêncio.
Tudo começou quando ela descobriu aquela suspeitíssima mancha de batom no colarinho da camisa dele.
Nos dias que se seguiram se atormentou com a dúvida cruel se deveria ou não perguntar se ele estava tendo um caso.
O tempo passou e a dúvida foi perdendo espaço para a certeza de que calar era o melhor que tinha a fazer para manter o casamento.
O marido parecia o mesmo homem de sempre: carinhoso, prestativo e sedento por sexo. Se não fosse a sua perspicácia poderia até achar que aquela manchinha tinha sido uma miragem.
Mas, a partir daí o seu instinto feminino foi aguçado. E um homem inteligente sabe o perigo que é uma mulher nesse período.
Ela sentia o perfume de mulher nas roupas dele, quando a conta de telefone celular chegava corria para ver se tinha algum número repetido e ligava de volta, quase sempre quem atendia eram mulheres.
O que a deixava tranquila era que as vozes das mulheres eram sempre diferentes, assim como o cheiro dos perfumes. Passou a ligar à tarde para o escritório dele e, com o tempo, passou a descobrir os sinais da traição até no tom da voz da secretária.

Se ela dizia:

- O senhor Marcos foi tomar um cafezinho, mas volta daqui há 1h00, mas daquele modo rapidinho, quase decorado, já sabia que estava mentindo.

No fundo do coração, bem no fundo, sentia pena da moça que estava fazendo mais do que aquilo que foi contratada.
Durante semanas, ligou para o escritório dele em dias alternados e descobriu que o garanhão se ausentava sempre às terças e quintas.
Em casa, fazia de conta que não sabia de nada para manter a paz no reino.
Até que um dia, ela voltava para casa do supermercado, o carro cheio de compras, atrasada para pegar os filhos na escola, quando passou em um buraco e o pneu do carro furou.
Por azar do marido, era uma tarde de quinta-feira.
Imediatamente ela soube que não adiantava ligar para ele e nunca se sentiu tão sozinha, nem quando achou a primeira mancha de batom na camisa, sentiu o cheiro doce de perfume barato ou ouviu pela centésima vez a voz apressada da secretária.
Voltou para casa, trocou a fechadura da porta. À noite, quando as crianças já estavam dormindo, ouviu os passos do marido e quando tentou girar a chave, mas não conseguiu.

Ele tentou uma vez, só uma, nada mais.
Virou às costas e foi embora. Ele sabia que não era mais desejado ali.

Mais uma vez o silêncio falou pelos dois.