sexta-feira, 8 de junho de 2012

O surto


Ninguém acreditou ao ver aquela mulher enlouquecida atacando o carro novinho em folha no meio da rua.
Da janela do apartamento, os vizinhos se olhavam e tentavam descobrir que espírito teria incorporado naquela moça sempre tão delicada com todos.
Só o que escutavam eram os berros ensandecidos: “Odeio essa cor!”, “Porque você foi escolher essa cor!”.
Era tudo muito surreal. O laço vermelho que envolvia o lindo carro agora estava no chão e era pisoteado sem dó e nem piedade, e tudo isso por causa da cor do carro?
O marido parecia desnorteado, certamente não esperava por essa reação tão forte e implacável.
Os vizinhos se sentiam mal por ele. Ninguém merece ter um presente rejeitado com tamanha violência. Ainda mais porque o carro não tinha uma cor tão diferente assim, era prata, bem comum.

“Eu devolvo para a loja e peço um carro de outra cor para você”, o marido tentava explicar, com a voz
mansa para não inflamar ainda mais a situação, que já estava totalmente fora de controle.

Meia hora depois de ter pisoteado o laço de fita, deixado às marcas do salto em cima do capô do carro e se revoltado com o mau gosto do marido, a mulher se acalmou e voltou para casa.
O marido parecia aliviado com o fim do espetáculo e louco para se esconder dos olhos daqueles estranhos.
Mas, quem estava perto da cena jura que viu um sorriso malicioso no rosto da moça, como se dissesse:

“Isso é apenas o começo...”.

O fato é que poucos dias se passaram até que a mulher voltasse a surtar. Dessa vez, foi por causa da cor do vestido.
A moça gritava: “Bege!” “Ele é bege!” “Eu odeio bege!”. E jogou o vestido pela janela.
Os vizinhos não sabiam o que pensar. E a vida do casal se transformou em um dos assuntos mais animados do prédio.
Eu que não estava lá, mas fiquei sabendo da história, tenho a minha opinião.
Carro prata e vestido bege! Tudo básico, simples e, por isso mesmo, tão chatinho...
Eu acho que a nobre vizinha queria apenas apimentar a relação ou sentiu que o maridão precisava ficar mais em casa, nem que fosse para se esconder dos olhos curiosos dos vizinhos.
E dizem ainda que nós, mulheres, somos complicadas.