domingo, 10 de junho de 2012

Vidas ao vento


Mais uma semana chegou ao fim, enquanto escrevo ouço as rajadas de vento batendo nos galhos das árvores, que ora são jogadas de um lado ora do outro.
Isso me fez pensar em duas crianças que foram atingidas pela vida, tão forte quanto o barulho do vento que ouço soprando lá fora.
Uma delas é Camila Sánchez Herbón, o primeiro bebê a morrer na Argentina após adoção da Lei da 'morte 'digna', aprovada há quatro semanas pelo Congresso do país.
O bebê vivia em estado vegetativo, sem atividade cerebral, desde que nasceu. Os problemas foram consequência de um erro médico. Camila permaneceu por 3 anos ligada a aparelhos, antes de se despedir dessa vida.
A mãe de Camila liderou a campanha para aprovação da lei argumentando que a bebê tinha o direito "a descansar em paz". "Ela só cresce. Não enxerga, não ouve, não chora, não ri, não se mexe mesmo quando a toco", disse a mãe, na ocasião.
Apesar do período que permaneceu entre nós ter sido em “estado vegetativo”, não foi em vão.
Mostra que a vida é maior do que nós.
Se a gente estreitar os olhos o que enxerga é um bebê, vítima de um erro médico, e um quarto frio de hospital.
Mas, se olhar para longe, em direção ao horizonte, percebe que “esse aparente estado vegetativo” conseguiu quebrar tabus e trazer a luz para uma discussão sobre vida e morte.
Veja você um bebezinho sem vida despertou os grandes homens para a importância de discutir sobre os limites da dignidade humana.
O tempo que Camila esteve neste mundo valeu toda a eternidade para milhões de famílias.
E o que podemos dizer sobre a menininha de 1 ano, filha de Elize Matsunaga?
Há pouco mais de um mês, ela tinha uma casa confortável e era amada por seus pais. Vivia como uma princesa de contos de fada.
De repente, no castelo da princesa, a mãe se transforma em uma psicótica, capaz de atos extremos de crueldade, e o pai desaparece para sempre.
O seu castelo é invadido por pessoas estranhas, que falam uma língua esquisita, palavras que ela nunca ouviu antes: crise conjugal, arma de fogo, esquartejado, sangue, assassina, morte e prisão.
A menina agora está longe de casa. E eu pergunto, será que um dia ela se sentirá novamente em casa?
Então, essa menininha vai crescer e um dia poderá perguntar o que aconteceu com o seu castelo de contos de fada.
Como vai reagir ao saber que o amor dos seus pais por ela pode ter sido a causa da maior tragédia que se abateu na sua vida?
Não é isso que a sua mãe disse quando foi presa? Que decidiu cometer todas aquelas atrocidades porque não queria perder a guarda da filha? É muita responsabilidade para ser colocada no colo de uma criança de um ano.
E quantos pais não cometem esse mesmo erro, sem perceberem? “Eu queria voltar a namorar e casar, mas fico sozinha por causa dos meus filhos”; “Eu abandonei a minha carreira para cuidar da minha filha, mas um dia em volto”.
Então, o amor machuca, destrói e acaba com os sonhos das pessoas que amamos?
Espero que essa menina encontre agora pessoas especiais que cuidem para que não se sinta culpada por amar e ser amada, então, reconstrua seu castelo com bases sólidas.
E já que estou falando sobre adultos irresponsáveis, o que você me diz sobre o comandante do voo 447 estar com uma mulher no momento em que o avião da Air France caiu no mar em 2009, deixando 228 mortos durante um voo do Rio para Paris?
Eu já contei que tenho medo de avião, mas de todas as situações possíveis eu nunca imaginei uma que fosse igual a essa. Se eu nem ao menos vou ao banheiro, com medo de ficar presa em caso de turbulência, como poderia imaginar algo assim tão surreal?
Essa semana acabou e estou me sentindo um pouco como os galhos das árvores, que são jogados de um lado para o outro, sem que possam controlar os próprios movimentos, pois não conseguem prever de onde virá à próxima rajada do vento.
Vamos cuidar da próxima semana, ela pode ser boa.