quinta-feira, 20 de setembro de 2012

A crônica que eu não escrevi


O campo das ideias é tão vasto que às vezes fico sem direção. Ou isso ou aquilo? Nessas horas eu costumo recorrer a alguns colegas... - Estou pensando em escrever sobre isso, o que você acha?
Um deles era o Fábio Marcelo Pereira.

Há pouco tempo, como bem disse uma amiga em comum, ele foi embora sem se despedir, saiu no meio da conversa, de forma dramática e definitiva.
As conversas com ele eram sempre agradáveis. Uma noite, eu me lembro de estar no Facebook e ler um post dele:

 - Vento sopra por aqui e agora pouco dava para ouvir o ronco do cão e seus sonhares. Penso no que ele sonha, há cérebro pra tanto.
Evitando reconhecer a pontinha de melancolia contida na frase, eu emendei...

- Com tanto vento que você diz estar soprando, o seu cachorro deve estar sonhando que está dentro da sua casa, embaixo de cobertores, assistindo E o vento levou..., que tal?
Ele entrou na brincadeira e respondeu...

- Diria que embora a sala esteja quente e habitada é hora de ir para o canto dele, pois, pela manhã, uma rosa vai voar e ele não poderá ver se estiver ao meu lado.
Eu achei graça na forma como usou a poesia para amansar as palavras.  

Quando o Fábio fez sua despedida abrupta, eu estava bem longe, viajando com o meu marido de férias.
E quando retornei, eu vi que tinha recebido uma mensagem dele:

- Posso sugerir uma crônica? Gostaria de ler algo sobre mulheres inteligentes, capazes e lindas, que foram abandonadas à beira do mundo. Eu preciso aprender a escrever com o sentimento que tenho das mulheres, longe de ser um Chico, um Caetano, um Vinicius, mas essa alma da mulher moderna não está dita.
Infelizmente, fiquei devendo essa crônica para o Fábio.

Se pudesse ter respondido a esse pedido teria dito que uma mulher tem muitas almas e para escrever sobre todas elas precisaria de mais de uma vida.  
Da mesma forma que o poeta não se faz de uma única estrofe, mas de um mundo indecifrável e ilógico que guarda dentro de si.

Nem sempre quem vive à margem do mundo se sente à margem do precipício. Nem sempre quem olha o vazio vê a escuridão.  
Todos nós temos nossos infernos, é verdade. As mulheres, talvez, vivam isso mais intensamente.  

Mas, não passa de ilusão. Um momento antes de voltar a ser feliz e sonhar com o tesouro que se esconde no arco-íris.
E o sonho não é a última gota de água que evapora do copo, eu diria, ele nasce e se transforma dentro de nós. Inesgotável.

 Não existem sonhos mortos, mas sonhos transformados. E o sofrimento depende do tempo que se leva para aprender a diferença.  
Portanto, volte a ser poeta e fale sobre a coleção de sonhos que tem guardada na prateleira. Como está seu estoque?

Mas, isso foi antes.
Então, hoje eu digo:

- Fábio, corra pelo arco-íris e procure o que todos nós sonhamos encontrar, o maior e mais desejado tesouro: a Paz de espírito.

 

4 comentários:

  1. puxa... me arrepiei...
    é sempre triste um amigo partir assim...

    O consolo é saber que vai conhecer a mais pura e linda de todas as mulheres...

    meus sentimentos Dani

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  2. NOssa Dani. Não tenho como expressar todo o sentimento ao ler essa crônica. Parece que estava vendo o Fábio ou lendo o que ele escrevia, ou até conversando, como tantas conversas que tivemos sobre as alegrias, tristezas, angústias, esperanças... Ele era e acredito que continua sendo muito intenso..Tão intenso e, ao mesmo tempo, leve, como as palavras que você, ao sabor do vento da amizade, do carinho, fez chegar ao coração de forma tão meiga, singela e bela...Mais que uma mensagem, uma homenagem linda...

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    1. Ro obrigada, essa vida é um mistério, hoje aqui e amanhã só Deus sabe. Quando se perde um colega bacana, como o Fábio, fica ainda mais claro a nossa falta de controle sobre a vida, beijos

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