domingo, 11 de novembro de 2012

Celular: um caso de amor ou ódio?


Eu pensei que isso era coisa da minha cabeça, mas percebo que estava enganada.
Por muito tempo, eu resisti a comprar um celular de última geração por achar que não teria domínio sobre o aparelho.
Eu estava certa.
A situação chegou ao ponto em que precisei tirar o barulho do aviso de e-mails e mensagens, pois já não conseguia dormir.
Era só ouvir o barulho para despertar do sono ou sair correndo do banho.

Pelo menos, esse problema eu resolvi.
Mas, existem algumas situações muito mais complicadas de resolver.
Por exemplo, nesse final de semana, eu estava em uma roda de amigas (todas casadas) quando surgiu o assunto sobre o celular.

- Você é muito chata, fica ligando para ele toda hora. Disse uma delas para a amiga ao lado.
- Ora, se ele tem celular o que custa avisar que chegou bem de viagem para que eu fique tranquila?

Nesse ponto da conversa, um dos maridos se aproximou para colocar lenha na fogueira.

- Ela fala isso porque nunca atende ao telefone!
- Ora, eu atendo quando eu ouço. Agora preciso ficar me preocupando com isso?

De repente, eu percebi que o celular passou a ter um papel muito mais importante nas relações entre as pessoas.
Atender ou não atender ao telefone celular, hoje tem uma conotação maior:

- Ele (a) se importa ou não comigo?
Há pouco tempo, o marido de uma amiga comprou um telefone para ela. A partir daí, surgiram brigas.

- Porque você não atende o celular? De que adiante ter um telefone se for para guardar na bolsa?
Ela ficou tão aborrecida que um dia, “sem querer”, deixou o aparelho cair no vaso sanitário. Adeus, celular. Adeus brigas. Adeus...

- Eu só ligo para ele quando o assunto é urgente!
- Ótimo. Mas, se ele não atende?

Uma vez, em uma dessas urgências, eu confesso que cheguei a ligar 10 vezes seguidas para o meu marido. Na terceira vez, eu já sabia que ele não atenderia as próximas sete ligações.
Mas, o sentido já não era avisá-lo da urgência, mas fazê-lo ficar preocupado com tantos telefonemas e, com medo, da minha raiva.   
Revoltada, continuei discando... discando... discando.
Cada vez, que a ligação caia na caixa postal eu me sentia mais sozinha:
- E se eu estivesse morrendo? Pensava.  
Pensamento bobo, eu sei. Como ele poderia salvar a minha vida apenas atendendo ao telefone?
Mas, os sentimentos são estranhos. A carência, então, é estranhíssima.

- Se ele atende o celular e sai de perto para falar com privacidade, o que você faz?
- Eu não me importo. Qual é o problema?

- Também não ligo para isso. Eu sei que ele não conseguiria uma mulher melhor do que eu.
Essas duas respostas acima foram dadas por mulheres muito bem resolvidas e casadas há mais de 30 anos.
Como eu gostaria de ser assim... Eu não sou.
Eu disfarço, mas de longe fico reparando se ele dá muitas risadas, a maneira como gesticula ou o tom da voz. E, depois, pergunto:

- Tudo bem? É o meu jeito de dizer: Quem era?
Antes do celular, era difícil ter privacidade para falar ao celular. Quase sempre o aparelho ficava na sala ou no quarto.

- Desliga isso ai, queremos assistir a novela!
- Aproveita e diz para ele que você tem pai e mãe.

Éramos obrigados a conviver com as interferências indiscretas. O jeito era cochichar ou falar em códigos.
- Sabe aquele chocolate (Sabe aquele menino)? Então, ele me deu uma dor de barriga daquelas (Ele me deu o fora).

Isso e passado. A tecnologia resolveu esse e outros dilemas. Mas, em compensação criou novos dilemas, que ainda estão longe de resolvidos.