quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Nem tudo que evolui é bom



Quando eu era criança lembro que um dos costumes dos moradores da minha rua era colocar as cadeiras de praia na calçada para bater papo.
Ficavam ali horas e horas só conversando. As crianças, como eu, brincavam de pega- pega, esconde- esconde, vôlei ou queimada.
Enquanto isso, os nossos pais ficavam batendo papo. Quando cansávamos íamos nos reunir a eles e a conversa seguia longe. 
Não faltavam assuntos e olha que naquela época não existia facebook, as TVs não tinham jornalistas em toda parte do mundo, nossas informações eram muito mais limitadas.
Nós conversávamos sobre coisas banais, do dia a dia, podia ser o preparativo de uma festa de aniversário ou sobre uma criança que estava doente ou tinha tirado nota baixa na escola. Coisas assim...
Gostávamos de falar de nós. Estranho, isso?
Hoje, às vezes, ainda vejo algumas pessoas sentadas na calçada batendo papo e até me surpreendo. Só que, geralmente, são pessoas idosas.
Eu percebo que os canais de TV exibem cada vez mais programas de decoração e de gastronomia, que ensinam a tornar o lar mais agradável ou receitas saborosas para fazer em casa de um jeito fácil e rápido.
Não é por acaso, ficar em casa é uma tendência.
A falta de segurança está contribuindo para isso. Mas, a falta de vontade de sair de casa também ocorre por uma questão de sanidade mental.
Sair de casa é correr um grande risco de se aborrecer por falta de respeito e delicadeza entre as pessoas.
Com o surgimento das redes sociais, agora mesmo é que não precisamos sair de casa.
Se a conversa for bacana, é só curtir. Se não gostar, ignora e faz de conta que não viu.
O melhor é que se a conversa for irresistível, a gente comenta, mas antes pode apagar quantas vezes quiser e ninguém ficará sabendo.
Ou seja, evitamos a exposição excessiva, evitamos ter que pedir desculpas ou dar explicações.
De certa forma estamos nos programando, como um sistema de computador.
Segundo Darwin, evoluir é uma coisa natural. Mas, a evolução nem sempre é uma coisa boa. O câncer que evolui, por exemplo, é péssimo.
Seja como for, parece que o ser humano evoluído está muito confuso.
Faz regime e não resiste aos programas de culinária na TV, come com os olhos.
Tem facilidade de fazer amigos, pode chegar a cem, duzentos em um único dia, vive conectado a eles em um bate papo, mas... não fala com a boca, só as mãos. Se comunica pelo teclado do computador ou telefone.
Decora a casa com móveis confortáveis e espaçosos, posta fotos na internet, exibe sua coleção de bibelôs, mas não convida ninguém para ir visita-la, vive sozinho numa realidade paralela.
Bem, não sei para qual espécie estamos evoluindo, mas parece muito solitária.