sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Ode a São Sebastião


Eu nasci neste pedaço de terra à beira mar, cercada pelo Mata Atlântica, um pedaço de terra que se estende por mais de 100 km, com praias lindas e um centro histórico que sempre me fascinou.
Eu cresci tentando adivinhar as histórias de vida das pessoas que viveram naqueles casarios. Imaginava a moça de vestido rodado olhando pensativa pela janela de madeira ou o leiteiro com sua charrete levantando poeira pelas ruas de terra.
A Câmara Municipal, onde o meu pai trabalhava, já estava localizada no mesmo lugar de hoje, em frente ao átrio da Igreja Matriz. Eu na minha ingenuidade era incapaz de perceber que ali era uma espécie de centro nervoso da cidade, para mim era apenas o local de trabalho do meu pai.
Adolescente tem a mania de querer fazer tudo do seu jeito e eu não era diferente naquela época. Mesmo com um cartaz enorme na Câmara proibindo a entrada de pessoas vestindo bermudas, roupas de banho (biquíni, sungas) ou chinelos, muitas vezes me fazia de cega para testar o sistema.
O meu pai era o primeiro a não me deixar entrar, ele ia conversar comigo na porta da Câmara. Eu ficava meio brava: Aqui não é a Casa do Povo? Porque eu não posso entrar do jeito que eu quero? 
Hoje, eu percebo o quanto eu estava sendo infantil. A roupa era apenas um símbolo, nunca se tratou disso, mas sim da maneira como as pessoas deviam se posicionar quando estivessem cuidando do seu futuro.
Era como se quisesse dizer: Antes de sair pedindo um favor ou cobrando os seus direitos, reflita sobre as suas razões e, se depois achar que vale a pena, saiba que nem tudo será sempre do jeito que você quer, mas se você estiver disposta a seguir algumas regras básicas de boa convivência sempre há mais chances de ser recebida com respeito e consideração.
Ou seja, é preciso respeitar para ser respeitado.
Eu ainda levei algum tempo para entender que as palavras devem vir acompanhadas de atitudes. Naquela época eu ainda frequentava a igreja do Pontal da Cruz, mas um dia decidi me comportar como se a Casa de Cristo fosse o quintal da minha casa e comecei a rir e a brincar na missa. O padre falava e eu sentir vontade de rir.
Eu fui ignorada, ninguém olhou para trás ou chamou a minha atenção. Eu fiquei lá sozinha e depois me senti tão mal que não voltei a frequentar a missa.
As pessoas podem se surpreender quando pensam que podem ser admiradas ao adotarem posturas debochada e arrogante. É mais fácil se tornar motivo de pena ou de raiva.
Aprendi ali que se eu quisesse ser levada a sério eu teria que levar as pessoas a sério e que exigir dos outros mais do que eu posso oferecer é incoerência e oferecer menos é hipocrisia. 
A infância no Pontal da Cruz, as visitas à Câmara, o passeio ao centro histórico e o visual das praias e da Mata Atlântica tiveram influência sobre a pessoa que me tornei.
Naquela época, os meus olhos ainda não conseguiam distinguir como é especial morar em São Sebastião. O que há de especial na beleza quando ela é tudo o que temos dias após dias?
Dizem que aprendemos a amar o belo quando nos deparamos com o seu oposto. Sentimos saudades quando nos damos conta da falta que sentimos de alguém, de um lugar...
E comigo também foi assim. Quando eu tirei os meus pés deste chão, o meu peito sentiu falta da brisa do mar que sopra a partir de Boracéia, faz uma graça especial no Guaecá e se despede na Enseada.
Há algum tempo decidi retornar a São Sebastião e, desde então, procuro resgatar um pouco do meu passado. Está cada vez mais difícil porque a maioria dos meus amigos mudou de cidade. O tempo se encarregou de afastar os outros que resistiram a ir embora ou foram atraídos de volta a essa terra.
Hoje sou eu quem trabalha na Câmara. Passo lá mais da metade das horas do meu dia, observo o tempo passar através da pintura caiada da Igreja Matriz, cada dia desbota um pouco mais, assim como as lembranças que tenho da minha infância.
Os casarios do Centro Histórico continuam por ali também, teimosamente, como uma força silenciosa que nos faz recordar de um passado que a juventude ignora e os mais velhos, ao longo dos anos, parecem ter treinados os olhos para não ver.
Mesmo assim, entre pesares e pesares, eu não consigo deixar de ser otimista.
Sofro dessa doença que, entre os sintomas, está o excesso de memória do passado.