domingo, 17 de novembro de 2013

Os fantasmas desta noite


Algo me diz que a medicina muito em breve vai descobrir uma fórmula para curar quem sofre de pensamentos inoportunos durante a noite.
Não como os calmantes que vemos hoje por aí, aqueles do tipo “sossega leão”.  Eu falo de uma fórmula mais ao estilo “caça fantasma”.
Se isso acontecer, eu vou experimentar esse remédio.
Eu já passei uma noite inteira pensando em qual a melhor cor para pintar a parede da sala.
Fechava os olhos imaginava a parede, os móveis próximos e começava o teste de cores. Já aconteceu de levantar da cama e ir até a sala dar uma espiadinha no lugar só para me certificar de que estava com a memória boa.
E quer saber? Desde que me mudei para a minha casa, em 2009, nunca mudei a cor da tal parede. Talvez para que eu continue a pintá-la na minha imaginação. Uma espécie de tortura consentida. Sei lá.
Pensamentos como esse garantem olheiras, aspecto cansado durante o dia, de resto é inofensivo.
Mas, quem disse que a noite é assombrada apenas por fantasmas inofensivos? Claro, que não é assim. De repente, quando fecho os olhos, imagens horríveis aparecem na minha frente.
Eu posso ver um bando de ladrões invadindo a minha casa e penso: quanto tempo eu levo para ir até o quarto das crianças antes que eles entrem na casa? Qual é o melhor lugar para nos escondermos? No sótão? Alto demais. Será que consigo abrir a porta do quarto, pular no telhado e chegar até o muro da vizinha?
Sinto toda a aflição que uma situação como essa pode causar. Sinto medo. Penso em colocar as crianças para dormir no meu quarto e trancar a porta. Assim, seria mais fácil agir em uma hora dessas.
Eu nunca cheguei a esse ponto. Mas, após lidar algumas horas com esse pensamento, já aconteceu de ir até a sala acender as luzes, verificar se as portas estão bem fechadas e as janelas trancadas.
Quando o dia amanhece, o medo evapora como água à luz do sol. É na escuridão que os fantasmas aparecem.
E conversando com um amigo na semana passada fiquei sabendo que ele sofre do mesmo mal que eu. Ao contrário de pintar paredes ou elaborar fugas impressionantes pelo telhado, ele fica fazendo cálculos.
Não são cálculos comuns, do tipo 2 + 2 = 4. Ele calcula o tempo e sempre acha que está perdido, que não vai conseguir cumprir os prazos, uma agonia só. Após passar noites e noites acordado, ele decidiu ir ao psiquiatra e agora está à base de calmantes.
Quem enfrenta esse dilema sabe que as noites de domingo são as piores. É fechar os olhos e começar a sentir o cérebro trabalhando para criar novas e inventivas histórias de aventura ou de terror. Cadê as as comédias? Os romances?
Eu desconfio que muitas pessoas passam pela mesma aflição. Para quem é dono das suas horas, é fácil. Troca o dia pela noite e se alguém argumentar basta colocar a culpa no relógio biológico.  
Mas, e quanto a nós pobres mortais que precisamos trabalhar logo cedo?.
Uma escritora disse que quando sente muito medo busca logo o extremo, ou seja, o fim inevitável pde todas as coisas: a morte. Ela conta que quando sente ciúmes, medo de perder as pessoas que ama ou de ficar doente, se recorda que o tempo na terra é passageiro e que daqui a alguns anos estará morta. Ou seja, nenhum sofrimento terá importância. 
Quando a morte se torna a referência, quando nos lembramos que tudo é transitório, os fantasmas deixam de ser tão assustadores.
Então, ela vai além e diz que uma pessoa só morre de verdade quando deixa de ser lembrada, quando todos que podiam contar como ela andava, falava ou gostava de tomar o seu café da manhã desaparece do mundo. Bonito esse pensamento, não é?