sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Panamá – Além do canal, uma cidade de muitos contrastes

América Central - Panamá
Cidade do Panamá vista de Casco Viejo
O Panamá é mais conhecido pelo seu canal, considerado uma das sete maravilhas do mundo moderno, uma obra de engenharia fantástica que une os oceanos Atlântico e Pacífico, construído para que as embarcações pudessem cruzar de um lado a outro sem precisar dar a volta em toda América, mas quem decide conhecer um pouco mais do lugar pode se surpreender.

A viagem do Brasil até a capital panamenha demora 7h00 e quando eu e o meu marido descemos do avião, com o céu nublado, a temperatura atingia 33º, o calor e a umidade logo dão as boas vindas.
Eu já tinha lido que é comum no Panamá os taxistas levarem na mesma viagem passageiros que mal se conhecem, por isso não foi surpresa quando o motorista perguntou se existia problema em dividir a viagem com outro senhor.   


Eu pensei que seria a oportunidade para aprender um pouco mais sobre a cidade, mas o “estranho” não desgrudou do celular durante todo o trajeto. Aff!. Do aeroporto até o Novotel Panamá City, no bairro chamado El Cangrejo, o taxista cobrou U$ 35,00.
No entanto, anote a regra número 1: se você vai ao Panamá, sempre brigue por um bom preço para o táxi, não aceite o primeiro valor que queiram cobrar. De U$ 35,00 nosso táxi saiu por U$ 30,00.
Apesar de não falar muito bem o inglês, o motorista que se chamava Juarez era um cara simpático. Além de trabalhar no aeroporto, nos contou que também trabalhava como bombeiro e ainda estudava para ser operador de voo.
Com um currículo como esse, ele pareceu uma pessoa confiável e fechamos um pacote para o dia seguinte. Sairíamos cedo para conhecer o máximo possível da capital panamenha pelo preço de U$ 130,00, contando ainda com o retorno para o aeroporto.


Na primeira noite, nós jantamos em um restaurante bastante popular na cidade, chamado El Trapiche, localizado na Via Argentina, apenas 3 minutos de caminhada do nosso hotel.
Para iniciar a noite, pedimos o tradicional cevice e em seguida saboreamos pratos de peixe e camarão, acompanhados da gelada cerveja Panamá (uma delícia!). O preço da conta U$ 40,29. Nada mal.



Com disposição, decidimos seguir para a “Churreria Manolo” para provar os churros que fazem sucesso na cidade desde 1972. Fiquei surpresa ao perceber que não tinha muita opção de sabores: Manjar Blanco (doce de leite, vai entender?) ou manzana (maça, rsrs). Não foi um UAU, mas valeu!
E, depois de uma noite perfeita, no dia seguinte estávamos prontos para conhecer a capital panamenha. Na hora marcada, o taxista estava nos esperando em frente ao hotel.
Não demorou muito para perceber que o trânsito no Panamá é um território sem lei. Os motoristas buzinam, param no meio da rua, ignoram setas, disputam vagas nos estacionamentos de forma selvagem e dirigem como se tivessem em uma guerra.
Por isso, regra número 2: Não alugue carro. Sempre vá de táxi.


 Primeira parada do dia foi nas Eclusas de Miraflores, onde para entrar nós pagamos U$ 15,00/ pessoa.

O local estava repleto de turistas e dei graças pelo tempo estar nublado, do contrário não seria agradável estar ali tentando encontrar um pequeno espaço na multidão para observar as operações dos navios.

Segundo o nosso guia, naquele dia nós demos sorte porque justamente no momento da nossa visita tinham dois navios atravessando o canal e mais o veleiro, assim pudemos acompanhar o movimento das comportas e o nivelamento das águas. O horário da visita: segunda a domingo, das 9h00 às 16h30.

A arrecadação do canal é responsável pela maior parte do orçamento do país, para ter uma ideia um veleiro chega a pagar U$ 800,00 pela travessia. Imagine um navio. Agora imagine vários deles em um único dia.

O Centro de Atendimento ao Turista é um espaço muito bem organizado, com um museu bastante interessante, que possui 4 andares, além de contar um pouco sobre a história da construção, revela a riqueza da fauna e da flora existentes no local.


Também é um lugar divertido, com ambientes lúdicos, em um deles a sensação era de estar na cabine de um navio em plena travessia, sentindo o balanço do mar enquanto as eclusas abriam e fechavam.

O segundo lugar que visitamos foi Pueblito, onde pudemos conhecer um pouco sobre o modo de vida dos antigos camponeses do Panamá.

Durante o passeio, fiquei impressionada ao saber que as roupas usadas pelas mulheres nos festivais típicos da cidade, chamadas de La Pollera, pode demorar até um ano para ser confeccionada e que a mais barata não sai por menos de U$ 5 mil.



Além das roupas, que lembram muito os trajes das mulheres espanholas, os acessórios são muito importantes. Os colares, por exemplo, revelam um pouco sobre a vida da mulher: a sua religião, estado civil, entre outros, sem contar os adereços de cabeça, com flores, pedras preciosas, uma beleza.





Nós caminhamos por uma espécie de museu aberto, uma sala de aula com móveis de 1600, a casa típica com quarto e cama de lona, cozinha com forno para pão e tortilhas, o trapiche para fazer caldo de cana. O altar de uma igreja, com teto todo enfeitado com bambu. Nós não conhecemos a parte da história indígena por falta de tempo.  




Pueblito está aberto de terça a domingo, das 10h00 às 22h00. A entrada é U$ 5,00.
Ali também tem algumas lojinhas de artesanato, aproveite para dar uma espiada. O preço não é lá grande coisa, mas anime- se para negociar.
Regra número 3: No Panamá tudo tem dois preços. Eu não gosto de barganhar preço, principalmente com vendedores de artesanatos, mas lá é quase obrigatório.


Passeamos de carro pela Amador Causeway, uma estrada à beira mar, com diversos restaurantes e marinas. Ali também está o Duty Free.  


 Para almoçar, optamos por conhecer o Mercado de Peixe. É um mercado local, onde os moradores compram mariscos e peixes.


Em frente do mercado, ficam as barraquinhas de comida. Nosso guia escolheu onde almoçaríamos e ficamos aliviados por ele conhecer o lugar já que o visual não pareceu muito limpo.



No entanto, limpo ou não, o cevice estava uma delícia, assim como o prato de pescado (corvina) com arroz de coco. Super bem servido, um prato facilmente daria para dois. Experimente também o pescado com patacon (banana verde frita).


Durante o almoço, o nosso guia explicou um pouco sobre a situação do Panamá que, segundo ele, oferece boas oportunidades de negócios e está em pleno desenvolvimento.
Ele é filho de pai americano, mas disse que não sente vontade de ir morar nos EUA.

- Somos todos americanos, se moramos na América Central, Sul ou Norte é um detalhe.
Eu concordei com ele, ciente de que o detalhe na prática representa um enorme abismo cultural, social e econômico.
Olhando pela janela do carro enquanto percorríamos a cidade, cá e acolá, olhando as casas dos bairros mais ricos, a arquitetura da parte nova da cidade, como a Cinta Costeira, um calçadão frequentado por quem pratica esporte ou deseja relaxar, eu pude sentir a forte influência da terra do Tio Sam no Panamá.


Não podemos esquecer que até 1999 os Estados Unidos mantiveram o direito de controlar as operações do canal e muitos americanos se mudaram para o país com suas famílias. Hoje isso é feito pelo governo panamenho.
O Panamá é um país cheio de contraste e isso pode ser visto principalmente nas ruas.
Um exemplo são os “Diablos Rojos”, os ônibus tradicionais, bem antigos, pintados com cores fortes e decorados com luzes, que ainda marcam presença nas avenidas e ruas da cidade, disputando espaço com os ônibus modernos, com ar condicionado.


Apesar do nosso guia insistir que já não existem muitos “Diablos Rojos” no país, não foi isso que eu percebi. Eu adorei fotografá-los e comprei até uma miniatura.
Também chamou a minha atenção os uniformes das colegiais, saias compridas e camisas fechadas, eu fiquei pensando o que a minha filha acharia de se vestir assim para ir à escola, no mínimo, consideraria antiquado.
Sem contar, os lindos trajes tradicionais que muitas mulheres panamenhas ainda desfilam pelas ruas. Eu gostei de saber que o life style americano não contagiou a todos e que parte da cultura do Panamá está preservada. 
Eu pensava sobre isso quando seguimos para Casco Viejo, o centro histórico da capital panamenha, e estacionamos em frente à Praça Simon Bolívar.

Foi um pouco difícil chegar até lá, o nosso taxista se perdeu e, de repente, estávamos fazendo um tour por El Chorrillo, um bairro considerado perigoso até pelos locais.

Depois do susto inicial, passei a prestar atenção no que estava vendo e foi interessante porque pude perceber novamente o choque de universos tão próximos e ao mesmo tempo com anos luz de distância.
Casco Viejo é limpo e organizado, com pessoas bem arrumadas, os “gringos”, e protegido pelos “policiais da presidência” já o outro, El Chorrilo, bem ao lado, com casas velhas, ruas feias e policiais, mas dessa vez fazendo blitz à procura de drogas ou outras coisitas ilegais.




Casco Viejo é um lugar charmoso, com lojinhas, restaurantes e hotéis. Nós caminhamos por uma rua coberta de flores para ver as barraquinhas de artesanato. Ali comprei o meu chapéu Panamá e também algumas lembrancinhas para a família.




Durante o passeio em Casco Viejo nós conhecemos o Denis, um brasileiro que está dando a volta ao mundo coma sua noiva colombiana. Ele iniciou a sua viagem a partir de Ilhabela. Pra se virar, ele disse que vende artesanato, cozinha nos barcos e até canta.


Ele mostrou uma pasta com fotos ao lado de algumas personalidades da televisão. Ele já tinha sido entrevistado por alguns canais, foi um momento feliz. Uma figura. Decidimos ajuda-lo com uma quantia, afinal não é todo dia que encontramos alguém tão livre de amarras. Ganhei uma flor.
Eu queria ter voltado no dia seguinte para conhecer mais essa região, a Praça da Catedral, o Altar de Ouro e circular um pouco mais pelos cafés e lojinhas, mas não foi possível.
Depois de um dia intenso, só faltava uma coisa: comprinhas! Afinal, o Panamá é reconhecido como uma zona de livre comércio, com preços muito interessantes.


Nós fomos ao Albrook Mall, o maior centro comercial da cidade do Panamá. Eu me perdi um pouco e deixei o maridão preocupado. No último dia da nossa viagem ao Panamá, ainda conhecemos o Shopping Multiplaza, com uma atmosfera trè chic.
Para quem pretende continuar viagem para os Estados Unidos, eu acho que não compensa fazer as compras do Panamá. Os preços são bons comparados ao Brasil, mas perdem quando comparados a Miami ou Orlando.
No dia de ir embora, o nosso guia não apareceu na hora marcada para nos levar ao aeroporto.
Mas, ao invés de ser um aborrecimento, esse fato serviu para que conhecêssemos a Cornélia, taxista que também é uma jovem mãe solteira de um ninõ de apenas 1 ano e que adora conversar.
Ela nos contou que o seu sonho é conseguir um trabalho no Canal do Panamá por causa do salário, algo em torno de U$ 1.300,00, considerado bom para os padrões do país e também pela estabilidade.


Apesar de dominar o inglês, Cornélia disse que até agora só tinha recebido propostas para receber U$ 600,00 e que isso não pagava as despesas, o que a obrigava a deixar o filho aos cuidados da mãe e continuar a batalha pelo trânsito da cidade.
Por segurança, ela só atende os passageiros dos hotéis e quando conversamos estava com esperança de que a indústria do turismo no Panamá fosse crescer para que a sua renda aumentasse enquanto o seu sonho não se realiza.
Eu senti durante as conversas com os moradores que eles acreditam no país e isso é reconfortante.
O Panamá é um país estratégico em termos de desenvolvimento mundial, é possível mesmo que no futuro todos os Juarezes e Cornélias consigam ver os seus sonhos realizados. 


Volto ao Panamá? Um dia, talvez daqui a alguns anos, por curiosidade.
Eu quero saber se país será generoso com o seu povo e preservará a sua tradição, será que os “diablos rojos” ainda estarão circulando e encantando com suas cores berrantes? 
Ou será que vou encontrar um país moderno, bonito, mas sem a essência que o distingue dos demais?
Principalmente, será que o Panamá ainda estará lá do jeito que eu guardo na minha memória? Espero que sim. Nem tudo precisa mudar.

 Vídeo da travessia de um navio nas eclusas de Miraflores: