terça-feira, 25 de novembro de 2014

Memórias - Fazenda Santana

São Sebastião - SP
Bairro São Francisco


 A vida é como um tear, um constante vai e vem de fios, que a princípio parece uma total desordem, mas conforme o tempo passa e vai surgindo a forma é possível compreender que tudo, enfim, tem uma razão de ser.
A cada novo ponto, uma nova história.
Eu acordei pensando sobre isso e eu lembrei uma passagem da minha vida, quando era criança e morava no bairro do Pontal da Cruz.




Lá tem uma antiga fazenda de escravos, a Fazenda Santana, atualmente uma propriedade particular. Na infância, eu tinha alguns amigos que moravam lá e sempre nos reuníamos embaixo das mangueiras para ouvir histórias dos antigos escravos.
Para dar medo em nós ou por ser verdade, vai saber..., eles nos contavam que ouviam barulhos de correntes e gemidos de dor. Nós morríamos de medo, mas não arredávamos o pé dali.


Há alguns dias, eu estava passando em frente ao portão da Fazenda Santana e decidi entrar para ver se ainda permanecia igual a minha lembrança.
O portão estava fechado, mas pedi autorização para um rapaz que estava com uma criança pequena e ele liberou a minha passagem.


A princípio eu fiquei olhando, como se esperasse que um dos meus amigos fosse aparecer de repente:

- Oi Dani, você por aqui? Quanto tempo..., que tal uma xícara de café?  
Mas, isso não aconteceu. De alguma forma, eu me senti um pouco intrusa. Apressei o passo, antes que alguém aparecesse e me impedisse de seguir adiante. Estacionei em uma sombra, olhei apressada ao redor e fui em direção às mangueiras.


Passei pelo aqueduto de pedras, que ainda está preservado. Quando eu era criança, sempre que ultrapassava esse muro de pedras era como atravessar um portal para o passado.


Alguma coisa parecia errada e logo eu percebi que era o silêncio. O silêncio quase ensurdecedor. Cadê as crianças brincando nas mangueiras?


Após caminhar mais um pouco, eu voltei até a casa grande. De repente, um senhor negro apareceu ao meu lado e perguntou, com cara de poucos amigos, o que eu estava fazendo ali.

- Quem deixou você entrar?  

Eu fiquei um pouco sem graça, mas disse a verdade. Eu falei dos momentos felizes que eu tinha vivido ali, dos meus amigos, do gosto das mangas e que estava com saudades...


- Por isso, eu vim aqui hoje. Posso ficar mais um pouco?
Ele sorriu como se o que eu falasse fizesse todo sentido e de repente eu pensei se outras pessoas já tinham estado lá e contado a mesma historia que a minha.


- Você é do Bem, disse o homem.
Ele seguiu em frente e logo desapareceu da minha vista, me deixando novamente sozinha com o meu passado e as minhas boas recordações.



PS: Dedico esse texto, aos meus amigos do Pontal da Cruz.