sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

ENTREVISTA - Dona Neide Palumbo: Memória e Alma Caiçara



A história da cidade de São Sebastião é contada com orgulho pelos moradores mais antigos, mas um deles tem uma forma muito especial de relatar as tradições do povo caiçara: a professora Neide Palumbo, 73 anos.
Em uma tarde de sol, nós nos encontramos para uma adorável conversa, cheia de lembranças do passado, mas com a lucidez de quem sabe que é preciso reconhecer as coisas boas que surgiram com o tempo. Essa entrevista aconteceu em 2015, mas decidi postá-la novamente em homenagem a minha cidade querida, São Sebastião, que amanhã comemora o dia do seu padroeiro. 
Dona Neide Palumbo nasceu em 1942, em São Sebastião, durante a sua infância viveu na Rua Expedicionário Brasileiro, no centro histórico, atrás do prédio onde hoje está localizada a Livraria Satélite.
O pai de dona Neide, José Rocha, tinha espírito empreendedor, além de ser um excelente contador de histórias, capaz de encantar os filhos ao falar sobre a sua infância e sobre as estrelas.
Natural de Paraibuna, ele mudou-se para o litoral para trabalhar na Companhia dos Ingleses, mas com a falência da empresa durante o período da 2ª Guerra, entrou para o ramo do comércio, abrindo a primeira sorveteria da cidade, um cinema e até um ringue de patinação.
“Na quarta- feira a patinação era exclusiva para mulheres porque naquele tempo elas não usavam calças compridas e quando caiam era um espetáculo a parte. Então, neste dia, a patinação acontecia com as portas fechadas”, recorda.
Aos 18 anos, já formada professora, dona Neide foi lecionar nas escolas que ficavam em praias isoladas na costa sul, Maresias e Paúba, onde só era possível chegar de barco.
Devido à distância, a professorinha morava nas casas das famílias caiçaras daí aprender o sotaque e as histórias foi uma questão de tempo.




Casada e mãe de cinco filhos, um menino e quatro meninas, dona Neide Palumbo já publicou um livro “São Sebastião nos meus tempos de menina” e gravou um CD com histórias dos caiçaras, ambos fizeram um grande sucesso e ganharam o mundo.
“Hoje em dia, eu vou ser franca com você, eu não sei o que é verdade ou mentira. O que eu inventei, criei e o que realmente eu escutei porque misturei tudo, são muitos anos que eu conto essas histórias, desde que me aposentei, há 30 anos. Essas histórias foram ficando dentro de mim e fui passando em frente”.
Neste mês, quando a minha cidade está clima de festa, eu fui aprender um pouco com essa professora sobre os causos e costumes dos meus conterrâneos e também algumas lições de vida e agora divido tudo com você. Boa leitura.

E – Eu já li as suas crônicas e assisti as suas apresentações de causos caiçaras. A senhora é uma pessoa observadora, puxou isso do seu pai ou da sua mãe?
N – Do meu pai. Eu era uma criança muito tímida, então, eu mais ouvia do que falava e observava muito as coisas, convivia com vários tipos de pessoas. Eu não era uma criança comum, com 2 anos e meio eu fugia de casa para encontrar com papai no bar. Eu queria estar convivendo com ele porque mamãe estava sempre ocupada trabalhando.

E – Quando você era criança tinha muita imaginação, era travessa?
N – Eu adorava brincar. Uma vez, eu vi uma senhora, com uma criança, sentada na porta da Santa Casa. Todos sentavam na porta, era gostoso, era costume. Quando eu vi aquele nenezinho lindinho, com cabelinho de pimentinha do reino, enroladinho na cabeça, eu fiquei sem respirar. Disse: - Moça eu quero essa boneca pra mim.
Papai tinha ido a São Paulo e comprado uma boneca de louça para mim, ainda estava na caixa, em cima do guarda roupa. Peguei a boneca e corri lá. – A senhora troca?
Ela, claro, não aceitou. Eu era escandalosa e comecei a chorar. Mamãe ouviu lá de casa e achou que estavam batendo em mim, correu lá. – O que foi? Ah...dona Benedita a sua filha quer trocar a boneca pelo meu nenê e todos riram.

E – As suas travessuras te renderam alguma apelido?
N - Quando a gente brincava na rua, como eu era morena sempre me chamavam de pretinha, negrinha ou Diacuí, uma índia que aparecia na revista Cruzeiro, que era famosa por ter roubado o coração de um explorador, que ficou encantado com a sua beleza e quis casar com ela. Como tinha cabelo de franjinha, muito liso, me chamavam de Diacuí. Ou banana nanica porque era muito sardenta.

E – Como foi morar com as comunidades das praias isoladas da costa sul?
N – Aos 18 anos, eu fui dar aula na costa sul, em Maresias e depois em Paúba. Naquele tempo, não tinha estrada e eram praias isoladas, a professora morava na casa da escola ou na casa de uma família de pescador. Em Maresias, eu morava com uma família, que para mim era mãe e pai, vivia como se tivesse nascido ali. A dona Ermelinda, dona da casa, escondia o sabiá em um arroz para que os filhos dela não vissem e eu pudesse comer. - Neide tem um sabiá pra tu no arroz!




E – Mas, sabiá?
N – Imagine, se hoje em dia a gente come sabiá! Mas, naquele tempo, como não tinha estrada, não tinha carne de jeito nenhum, então, o que a gente comia era o peixe que vinha no cesto. O tempo em que o mar tava grosso, não dava para pegar o peixe, comíamos o peixe salgado que se guardava para isso. E, aos domingos, na venda sempre tinha uma carne seca, que vinha do Rio Grande do Sul, com quatro dedos de gordura. Esses quatro dedos de gordura, a dona Ermelinda punha no feijão e na hora do almoço colocava outro pedaço de gordura em cima da mesa e precisava dividir entre todos porque se não dava briga. A gente comia toda gordura e não fazia mal.

E – Imagina se isso fosse feito hoje: colesterol alto, doenças cardíacas...
N – Eu peguei foi muito verme. Um dia o doutor Álvaro foi à escola para dar remédio de verme para os alunos e ferro porque quase todo mundo tinha anemia e disse: - Nossa, mas quem está pior aqui é a professora! A água era sem tratamento e não tinha esgoto. Então, pegava todo tipo de verme. Fora o bicho de pé!

E – Era uma vida difícil...
N – Menina, mas eu gostava. Eu me entrosei tanto naquela família, naquela comunidade, que para mim era uma coisa normal viver ali. Dava aula de manhã e na parte da tarde as crianças iam até em casa para eu dar reforço. As velhas iam lá para cortar o cabelo e tirar o birote.

E – A senhora nunca pensou em morar em outra cidade?
N – Não, aqui é a minha raiz. Quando fui para Paúba, eu ficava em uma casa em frente à escola. A dona colocou um colchão no chão e uma cortina para separar o meu espaço do restante da sala, mas para mim aquilo tudo era uma festa, eu adorava. À noite, a gente sentava na porta da sala e o filho desta senhora tocava viola, cantava verso e ela contava histórias.

E – A senhora pensa em escrever um livro sobre a época da sua juventude?
N – Não, eu escrevi sobre a minha infância. Quando a gente escreve um livro assim é algo que nasce dentro da gente, em um lugar profundo e vem naturalmente. Não é uma coisa que se diga, vou escrever um livro. É algo que flui, vem de você.

E – E porque a senhora decidiu apresentar os causos caiçaras?
N – Então, eu trabalhei esse tempo todo na costa sul e quando estava lá eu conversava e ouvia muito as pessoas contarem suas histórias. As histórias ficaram dentro de mim e quando eu conto, neste momento, eu vivo aquilo, eu vejo o lugar, eu sinto o cheiro e entendo a emoção da pessoa. Quando ponho o que a pessoa está falando também ponho o que a pessoa está sentindo. Não é só uma troca de palavras.

E – Será uma forma de preservar a história dessas pessoas?
N – Claro. Eu tenho dentro de mim como se fosse um tesouro que eu guardo. Isso é meu. Gravei um CD com essas histórias, mas não quero coloca-las em um papel porque eu acho que isso vai perder a emoção. A minha filha Fernanda está transcrevendo essas histórias, colocando o sotaque direitinho, mas, por exemplo, quando eu falo uma banana (fala com sotaque caiçara bánána) é difícil colocar o som direitinho.



E – No passado, os moradores do centro da cidade também falavam com esse sotaque ou só os moradores da costa sul?
N – Somente os moradores das praias isoladas, como na Ilha até hoje algumas pessoas tem esse sotaque. Depois da construção da rodovia Rio- Santos, da Petrobras, chegaram moradores de diversos lugares e misturou. O sotaque ficou perdido.

E – A senhora chegou a pegar esse sotaque? Quando eu viajo, sempre volto com sotaque, falando igual às pessoas do lugar.
N – Não. Eu só conto a história com sotaque para dar autenticidade porque é assim que a história foi vivida.

E – A senhora lembra a primeira vez que fez uma apresentação?
N – Foi com a minha amiga Elza, que morreu muito cedo. Nós fomos criadas juntas, éramos vizinhas.

E – Você disse que puxou o lado observador do seu pai. Ele também gostava de contar histórias?
N – Ele me contava muitas histórias. Papai contava a infância dele, o que viveu em Paraibuna, as coisas da família e gostava de receber pessoas em casa para conversar. Eu ficava quietinha ouvindo tudo porque não era para perder uma palavra, eram coisas muito interessantes. Eu acho que isso me influenciou.

E – Então, a senhora tem dentro de si muitas histórias...
N – O meu pai estudou até o 2º ano do primário, sabia ler e fazer contas, mas a cultura dele vinha dos livros. Ele adorava ler e quando tinha um romance que ele gostava, contava para a gente de noite. Tinha uma época em São Sebastiao que não tinha luz elétrica, era só luz de vela e nós ficávamos todos deitados em uma cama só para escutar as histórias dele.

E – As famílias que a senhora conheceu na costa sul, que serviram de inspiração para as suas histórias, chegaram a assistir alguma apresentação?
N – Não, está todo mundo morto, mas eu acho que iriam gostar. Quando conheci o Bonete, há 20 anos, eu fiquei meio constrangida de contar essas histórias lá, com medo de que se ofendessem, mas eles amaram e passaram a me contar coisas para eu introduzir nas histórias. Esse meu medo de que as pessoas não entendessem, acabou.



E – A senhora acha que a vida da mulher era melhor antes ou agora?
N – Agora. Eu lembro que o fogão lá de casa era de lenha, que vinha da Ilha e chegava toda molhada de água salgada, quando colocava no fogão saia uma fumaceira, mamãe vivia sempre de olhos vermelhos de soprar aquele fogo. Lembro também que eu tinha uma grande amiga na Santa Casa, uma preta velha, chamada Florência. Um dia, ela disse que tinha ganhado alguns peixes, mas não podia “consertar” (limpar, tirar as escamas) porque não tinha faca. Aí, eu disse: - Espera aí, corri em casa e peguei a faca da mamãe. Ela ficou numa alegria.

E – Não era comum ter uma faca?
N – Não. Neste dia, a Florência achou que eu estava dando a faca, mas na minha cabeça eu estava só emprestando. Mas, como ela ficou naquela alegria, eu não tive jeito de dizer que era só emprestado. Mamãe começou a fazer o almoço e cadê a faca? Ela precisou correr na venda do senhor Lourenço e comprou outra faca e foi amolar na pedra. Um dia foi na Florência e viu a faca dela, chegou em casa e disse:

- Meu Deus, é um mistério que a gente não pode decifrar como pode uma faca lá de casa foi aparecer na casa da Florência, se ela não vai na minha casa.

E eu respondi:

- É mamãe esse é um mistério que nunca vai ter como explicar. Kkkkk. A mamãe morreu sem saber como a faca foi parar lá.

E – Mas, só melhorou?
N – Não, não. Eu acho que essa amizade, a ligação entre vizinhos, isso acabou. Tinha tanta velhinha nesta cidade, mas tantas... Tinham duas que moravam perto de casa e sempre que mamãe ia fazer sorvete, cada caldeirão tinha 5 litros de leite, ela tirava uma caneca para eu levar para elas.
- Leva essa caneca de leite pra nhanhá.
Pegava a caneca e saía correndo, com caneca grande na mão, era feita de garrafa de óleo e tinha um senhor na cidade que colocava cabo. Isso era nos anos 40.

E – Era uma cidade alegre?
Tinham as festas da igreja. O mês de Maria quando levávamos flores para a Nossa Senhora, agora está voltando tudo, mas durante um tempo tudo tinha acabado. Tinha a festa de Santo Antônio quando corríamos para a igreja para ganhar sacos de doces. Dona Júlia, mãe do doutor João Batista, colocava doces de abóbora, de batata, tudo docinho gostoso em um pacotinho de papel crepom e para a gente era uma festa. Aniversário todo mundo ia, não precisava convidar. Não tínhamos dinheiro para comprar presentes, comprávamos uma lata de talco, um sabonete, só essas coisas.

E – O que a senhora pensa sobre as mulheres hoje?
N – Eu enxergo que hoje elas deixam de se valorizar, de olhar para dentro de si e ver que é um ser sagrado e saber que não são responsáveis pela atitude de ninguém. Cada um é responsável pelo seu amor, sua raiva, seu ódio, desencanto, você não pode fazer a parte do outro, pode apoiar, dizer palavras que ajudem a pessoa a acordar, mas cada um é responsável por si mesmo, pelo que pensa e sente e responsável pelo que tem em volta.

E – A mulher sempre se sente culpada por tudo...
N – Sempre! Achando que podia fazer melhor, fazer diferente e não é por aí. Primeiro a gente precisa aprender a se perdoar, depois os outros e as situações. Viver com alegria. A vida é alegria, não existe outra coisa, viver bem!

E – Para você que teve essa vida tão tranquila é difícil de adaptar a esse tempo em que as pessoas não conversam, nem mesmo ao telefone, tudo é através do WhatsApp?
N – Não me acostumei. Eu não sei mexer em computador, as minhas filhas querem me ensinar, mas não consigo aprender porque não tenho interesse.

E – A senhora sente medo de viver nesta época onde tudo acontece rápido?
N – Eu não tenho medo nem de morrer. A gente tem que viver o agora, o único momento é o agora, o resto é tudo bobajada. Tudo passa neste mundo de ilusão. O que não passa é o amor que você tem no coração.

E – A senhora se considera uma pessoa realizada?
N – Me considero. Eu sou uma pessoa muito feliz. Tudo que acontece na minha vida eu enfrento e saio mais forte.

Obrigada, dona Neide.

Por todo encanto que me trouxe em uma tarde de terça-feira.

Assista ao vídeo: