quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Laguna – A cidade do romance entre Anita e Garibaldi



Contam os livros que, a bordo da embarcação "Itaparica", o revolucionário Giuseppe Garibaldi observava com uma luneta as casas da barra de Laguna, em Santa Catarina, quando avistou uma jovem cujo rosto conquistou sua imaginação e seu coração.
Providenciou um barco para ir até o local onde a tinha visto, porém não a encontrou e já tinha perdido a esperança quando um habitante local o convidou a ir a sua casa para um café. Garibaldi aceitou e na casa encontrou a jovem que procurava. Assim Garibaldi relata em suas memórias o seu primeiro encontro com Anita:

"Entramos, e a primeira pessoa que se aproximou era aquela cujo aspecto me tinha feito desembarcar. Era Anita! A mãe de meus filhos! A companhia de minha vida, na boa e na má fortuna. A mulher cuja coragem desejei tantas vezes. Ficamos ambos estáticos e silenciosos, olhando-se reciprocamente, como duas pessoas que não se vissem pela primeira vez e que buscam na aproximação alguma coisa como uma reminiscência. A saudei finalmente e lhe disse: 'Tu deves ser minha!'. Eu falava pouco o português, e articulei as provocantes palavras em italiano. Contudo fui magnético na minha insolência. Havia atado um nó, decretado uma sentença que somente a morte poderia desfazer. Eu tinha encontrado um tesouro proibido, mas um tesouro de grande valor”.
É para a cidade de Laguna, onde começou o romance entre Anita e Garibaldi, que eu convido você a viajar comigo.



 
Ana Maria de Jesus Ribeiro, mais conhecida por Anita, tinha 18 anos quando se encontrou com Giuseppe Garibaldi. Ele tinha 32 anos. Garibaldi tomava parte das tropas farroupilhas de Davi Canabarro, em julho de 1839, que chegaram para tomar Laguna, uma cidade praiana, em São Catarina, no sul no Brasil, com o objetivo de formar a República Juliana.
 
 
Em 20 de outubro de 1839, Anita decidiu seguir Garibaldi, subindo a bordo de seu navio para uma expedição militar. Eles ficaram juntos pelo resto da vida de Anita, que seguiu Garibaldi em seus combates em Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Uruguai (Montevidéu) e Itália e tiveram quatro filhos.

 
Nossa primeira parada na cidade foi na casa amarela com janelas azuis, ao lado da Igreja Matriz Santo Antônio dos Anjos da Laguna, onde ocorreu o primeiro encontro entre Anita e Giuseppe.  
Esta casa, disseram os guias, pertenceu aos padrinhos de Anita e foi aqui que ela se vestiu para o seu primeiro casamento, aos 14 anos, com Manuel Duarte de Aguiar.
Mas, vamos voltar casa de chão de tábua e parede caiada, onde estão guardados alguns objetos da época e os quadros com fotos da família.

Ao entrar na casa, o primeiro cômodo que observamos é a sala, onde tem uma mesa, quatro cadeiras e uma máquina de costura.

Também tem um móvel onde está exposta a certidão de nascimento de Anita, confirmando que ela nasceu em Laguna.
Ali também fica exposta a certidão de casamento dela com Giuseppe, no Uruguai, em 1842. Dois anos e meio após encontro, o casal legalizou a união, na igreja de São Francisco de Assis, em Montevidéu. Neste móvel, também está uma tesouro que teria pertencido a Anita e foi deixada para uma amiga.


Ao lado da sala está um quarto, com uma cama antiga, criado mudo e um retrato de Anita, Garibaldi e os três filhos: Menotti Garibaldi (1840), Teresita (1845) e Ricciotti Garibaldi (1847).
 
Eles tiveram outra filha, Rosa (1843), que faleceu aos dois anos de idade por asfixia, por causa de uma infecção na garganta. No quarto, também tem desenhos que mostram como foi o encontro do casal e também como teria sido o dia da morte de Anita. Para desespero de Garibaldi, ela faleceu com apenas 27 anos e grávida do 5º filho.
 
A casa ainda tem uma sala de jantar, com objetos da época.
Anita é conhecida atualmente como a "Heroína dos Dois Mundos" e existem vários monumentos e ruas em sua homenagem.


Estar em Laguna é como reviver esse passado. Por isso, depois que saí da Casa de Anita fui conhecer a Igreja Matriz Santo Antônio dos Anjos da Laguna, disseram que ela está bem diferente, mas um recado avisa que parte do prédio tem mais de 300 anos.

Durante a visita ainda conheci a Casa de Pinto D’Ulysséa, construída em 1866, inspirada em uma Quinta Portuguesa, com a fachada revestida de azulejos. No passado, foi uma importante chácara.

Ao lado desta casa, fica a Fonte da Carioca, construída em 1866, onde as pessoas da cidade ainda hoje vão buscar água. Ela foi ampliada em 1906 e restaurada em 1990.
 
Diz o ditado popular que "Quem bebe desta água sempre retorna a Laguna e seus amores". É claro que eu bebi desta água!
 
Nossa última parada na cidade foi para conhecer o monumento erguido para lembrar a assinatura do Tratado de Tordesilhas, em 1494, que estabelecia uma linha imaginária 370 léguas a oeste do Arquipélago de Cabo Verde, sendo que as terras a leste desse meridiano pertenceriam a Portugal. O trecho de terra limitado pelo tratado se estendia de Belém do Pará, ao norte, até Laguna, ao sul.
O monumento fica em um lugar meio estranho, mas não custa nada ir conhecer, certo?

Ao viajar pelo sul do Brasil fica evidente que a Revolução Farroupilha ainda é lembrada pelos gaúchos com orgulho e por alguns com certo saudosismo. É o caso do dono de um hotel na pequena Cristal, localizada no Rio Grande do Sul, cidade que abriga o Parque Histórico Bento Gonçalves.
Ao conversar com ele, nós ficamos sabendo que era a favor da separação do Sul do restante do país por não se conformar que uma região tão rica possa estar enfrentando tantas dificuldades.

Pensei: O tempo passa, mas algumas coisas não mudam. Infelizmente!