sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Amor Maduro - Degraus da Vida

 

Era um prédio antigo, com paredes grossas, que pareciam estar ali desde sempre, antes mesmo de eu me entender por gente.
Ele já tinha visto dramas demais e, por causa disso, parecia imune a sentimentos pequenos, que machucam na hora, mas depois desaparecem como fumaça.
Era um prédio antigo, mas para mim parecia uma pessoa idosa, um sobrevivente do seu tempo.


E o que eu fazia ali?
Era isso o que eu me perguntava enquanto subia a escada de madeira.
Subi em silêncio, ainda em dúvida sobre se devia seguir com o meu plano.
O meu silêncio fazia um barulho intenso dentro de mim e o rangido dos degraus de madeira, denunciando a minha presença naquela casa só colaborava com a minha agonia.
Não podia voltar atrás, não agora que o enorme casarão antigo já tinha sentido a minha presença.
Não poderia decepcioná-lo ou poderia?
Com o coração pesando mais do que o meu corpo inteiro cheguei ao final da escada, virei à esquerda e cheguei a um salão amplo, com teto alto e enormes janelas seculares.
Fiquei presa ali, parte do corpo presa ao chão e a outra parte querendo partir.
Se neste momento, não domasse a minha alma, ela fugiria pela janela e certamente se perderia na paisagem lá de fora.
Mas, não era para isso que tínhamos ido até ali. - Ora, sossegue garota!
No casarão antigo, encontramos pessoas com almas leves e desassossegadas e a minha alma logo se sentiu acompanhada.
Abrimos os nossos corações, contamos histórias e fomos generosos com as palavras e os sorrisos.
Na volta para casa, ainda sentia o sorriso sorrir e lá estavam eles...
Ao pé da escada, o moço velho segurava as mãos da sua dama. Eles combinavam tanto com a casa, que eu decidi acompanhá-los com o olhar.
Eu notei que eles conversavam sobre uma maneira segura de descer os degraus antigos de madeira, que eram muito altos e poderiam ser perigosos.
Um tombo naquela hora seria mesmo fatal!
Ele decidiu: iriam se separar, cada um ficaria no seu canto da parede e desceriam os degraus com os pés de ladinho.
Apesar da distância entre eles, o ritmo dos dois foi o mesmo e chegaram juntos no final da escada.
Eu fiquei assistindo a tudo e pensei no quanto é raro, nos dias de hoje, de sentimentos líquidos, ter alguém que esteja perto na distância, seja companheiro na descida, caminhe devagarzinho só pra fazer companhia e chegue junto, seja qual for o destino no final da escada. Isso é o que eu chamo de amor.