terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Eu conheço você?


Um susto me fez olhar para trás.
Lá estava ele, um homem sujo, com roupas rasgadas e um olhar nublado, que contrastava com o lindo dia de sol que fazia naquele dia.
Mas, eu não estava enganada. Ele tinha mesmo chamado o meu nome. E não foi apenas uma vez, mas duas.

Daniela. Daniela.
Ele estava cambaleando e era tão evidente que estava embriagado, que nem tentava disfarçar porque isso só faria com que parecesse ainda mais bizarro.
Eu podia ter acelerado o passo e fingido que não tinha ouvido aquele homem chamar o meu nome, mas não foi isso o que aconteceu.
Eu olhei para aquela figura meio homem e meio abandono. A princípio não reconheci.
Mas, havia algo de familiar naquela imagem que não me deixava ir embora.
Algo que me fez recordar um tempo na infância. O tempo em que o mundo se resumia apenas ao meu bairro e, apesar disso, parecia gigantesco.
Aquele homem maltrapilho, com olhar bailarino, era o meu amigo de infância que eu não via há tanto tempo.
Eu devo ter sido indelicada, mas não pude evitar o assombro.

- O que aconteceu com você? Essa pergunta escapou sem que eu pudesse contê-la.
Amigos, principalmente aqueles que deixamos no passado, tem essa mania de dizer verdades de supetão, que por vezes é meio rude.
Talvez, por isso mesmo, devem ser deixados no passado.  Enfim...
Ele me olhou e sorriu.

- Estou tão ruim assim? Faz tempo que eu não me olho no espelho.
Caramba, na hora eu fiquei feliz por não ter um espelho para não ver a minha cara de idiota.

- O que aconteceu com você? Que pergunta inadequada, como pude ser tão insensível?
Estava claro que o homem na minha frente vivia no inferno, consumido pelo fogo que ele alimentava com doses cada vez maiores de álcool.

- O que aconteceu com você?
O que importava isso para mim. Pra que saber a resposta se eu não estava disposta a resgatá-lo do inferno. Pra que atiçar o fogo?
Mas, por necessidade ou, como prefiro pensar, por consideração, ele fingiu não perceber o meu desconcerto e mudou de assunto:

- Eu estou com fome, me disse.  
Eu o convidei para almoçar em um restaurante pertinho de onde estávamos. Ele ficou tímido, disse que não estava vestido de forma adequada. Eu insisti.
Nós fizemos um esforço para não perceber os olhares das pessoas ao nosso redor.
Eu ainda tinha um monte de perguntas, mas depois do começo desastroso, não fiz nenhuma delas.
Quando ele se sentiu confortável, me contou a sua história, entre lágrimas e sorrisos.
Logo que a comida chegou, ele perguntou se podia ir embora porque gostaria de dividi-la com os seus amigos da rua, como se esperasse a minha autorização.
Fingindo despreocupação, como se encontrar um amigo de infância morando na rua fizesse parte da minha rotina, eu disse que ele poderia retornar a sua antiga vida.
Ele apenas riu e me senti novamente uma idiota.
Como eu poderia saber se a antiga vida dele tinha sido melhor do que a vida que ele levava agora?
Ficou claro que se não estivesse disposta a me comprometer era melhor não interferir. Não é justo levantar dúvidas e ressuscitar fantasmas se não for para ficar e brigar junto.
Eu poderia dizer que fiquei arrasada por ele, mas não seria verdade.
Não pense que eu tenho o coração duro, mas é que apesar da aparência de maltrapilho, ele parecia resignado com a vida e até satisfeito.
Eu o abracei, ele não me abraçou. Foi algo meio desengonçado e até engraçado, pensando agora.
Pode ser que ele já estivesse cansado de ter que lembrar o passado e só tenha feito isso por causa do prato de comida.
Talvez, ele tenha se arrependido de ter chamado o meu nome.
Enquanto eu pagava a conta do almoço, fiquei pensando em quantos mundos existem dentro de nós.
Eu conheço você? Não, amigo, eu não te conheço. Nem sequer me conheço. Fique em Paz.