sexta-feira, 11 de março de 2016

Você aceita um copo de água gelada?


Ela se aproximou da minha mesa de trabalho com uma expressão aborrecida. Não esperou que a convidasse para entrar, foi entrando sem mais o quê e jogou o corpo na cadeira.
Antes mesmo que ela começasse a falar o que tinha ido fazer ali, pelo jeito impaciente com que se movimentava na cadeira, como se estivesse sentada sobre brasa quente, eu já sabia que o assunto não seria muito agradável.

A presença daquela mulher na minha sala e a forma como entrou sem esperar ser convidada, me deixou aborrecida.
Na verdade, ela não tinha chegado numa uma boa hora, eu estava num daqueles momentos de inspiração, quando bato com força nas teclas do computador como se quisesse tirar à força as palavras que brotam dentro de mim.
Eu confesso que esses momentos de inspiração não tem sido comuns nos últimos tempos e, por isso mesmo, a chegada daquela mulher me aborreceu e enquanto a observava eu só queria que ela fosse embora o mais rápido possível.
Ela, por sua vez, agia como se não notasse a minha cara fechada, sabe aquela cara que a gente faz quando quer que tudo se resolva bem rápido?  
Mas, eu não sei o que aconteceu... Não sei se foi o suor que vi escorrendo no rosto dela, à forma como ela se abanava com um paninho querendo um sopro de vento ou a voz triste com que passou a me contar a sua história.
Ela estava decepcionada.
Há algum tempo, ela tinha planejado uma viagem para consultar um médico, fez tudo com bastante antecedência porque sofre de ansiedade.
Mas, as coisas não saíram como planejadas. O amigo, que tinha prometido dar uma carona até o médico, ligou na última hora para dizer que o carro estava cheio.
Ela não cabia no carro. E, agora, estava sentava na minha frente para saber se eu poderia arrumar outro carro para levá-la na consulta.
Alguma coisa naquela mulher me comoveu. Ao invés de dizer apenas que não poderia ajudá-la, o que seria verdade, e terminar logo a conversa, eu me ouvi oferecendo a ela um copo de água gelada.
Para a minha surpresa, ela começou a chorar. Não respondeu nem sim e nem não. Apenas começou a chorar.
Eu pedi que ela ficasse sentada, que não fosse embora e tomasse um copo de água gelada comigo.
E, foi a partir dessa hora, que a nossa conversa começou de verdade.
Ela disse que estava magoada porque ficou sabendo na última hora que não caberia no carro, o que considerava uma grande falta de consideração.
Isso fez com que se sentisse desrespeitada.
Eu disse que não poderia julgar o comportamento do amigo dela sem saber a versão dele, afinal imprevistos acontecem... (Tenho defeitos, mas não sou destruidora de amizades!)
Também fui sincera, disse que não poderia levá-la ao médico e desconfio que ela já soubesse disso porque não contestou.
Para acalmá-la, ainda acrescentei que, se depois de muito esforço, ela não conseguisse uma nova carona que não se sentisse triste, às vezes as coisas acontecem para nos livrar de algo pior.
Quando, finalmente, ela foi embora da minha sala...
Eu voltei ao texto que estava pela metade e pensei que o meu conselho também deveria servir para mim.
Quando for preciso um grande esforço para escrever uma crônica talvez fosse melhor não escrever.
Talvez aquela senhora fosse o que eu precisava para não concluir a minha crônica e livrar você, leitor (a), de perder tempo com um texto bem chatinho...
Na hora, fechei a página e fui procurar algo para comer na geladeira. Comida sempre me inspira.
Espero que tenha valido a pena e que essa crônica que escrevo agora faça algum sentido para você.
Se não, que tal um copo d água gelada?