segunda-feira, 18 de abril de 2016

Paineira-bonsai: a história de uma planta

Por Isabel Galvanese


Tem árvores que tem uma história com a gente. Eu mesma, depois de tantos anos fazendo jardins conheço a história de várias. É como se ao passar na frente delas tivéssemos um segredo de velhas amigas. Uma dessas histórias começa em São Paulo com o nascimento do meu primeiro filho.
Logo nos primeiros dias em casa, fomos dar um passeio de carro para observar uma árvore que o Edú, meu marido, descobrira no caminho do trabalho.  Foi um choque de tanta beleza!
No meio de um monte de asfalto, concreto e trânsito, aparecia majestosa,  cruzando de uma calçada a outra por cima dos carros, uma paineira repleta de flores de um rosa tão clarinho bem pálido, incomum para a maioria das paineiras.

Quem conhece o Edú sabe que ele está sempre semeando. Seus shorts têm sempre nos bolsos sementes que ele cata por aí para fazer germinar. Quantas sementes já mandei sem querer para a máquina de lavar!
Por isso, como era de esperar, depois de algumas semanas, o Edú apareceu em casa com painas, que são os frutos das paineiras, cheias de sementes para tentar fazer mudas. Conseguimos germinar duas sementes e fizemos mudas para acompanhar seu crescimento.

Em São Paulo é difícil um lugar para plantar paineiras porque são árvores muito grandes chegando até uns 10 metros de altura. Inspirados no livro de bonsai, que liamos na época, resolvemos tentar com as duas mudas.
Bonsai em japonês quer dizer "árvore em vaso", na prática, é a arte de selecionar e transformar árvores que tenham potencial para se assemelhar a uma réplica na natureza. Requerem cuidados anuais de poda não só dos galhos, mas também das suas raízes, com um replantio sempre no mesmo vaso, bem pequeno.  
                                                               
                                                                              
Passaram-se dois anos e nos mudamos para São Sebastião com dois filhos, uma jabuticabeira e duas paineiras-bonsais na bagagem. Viemos para um bairro lindo cheio de verde e espaço.
Quando os bonsais já tinham uns treze anos, achei que podíamos ficar com um bonsai e "dar liberdade ao outro" plantando numa bela cova cheia de terra boa e adubada.
Escolhemos um lugar atrás da casa da minha sogra, bem perto de casa, num fim de rua com uma área verde onde uma árvore poderia crescer com liberdade.
Não tinha um mês que a paineira estava na terra quando a prefeitura resolveu limpar a área com um trator, aquele tipo de limpeza que arranca tudo e não sobra nada. Minha sogra, que faz parte da turma-que-adora-plantas, fez o maior escarcéu em defesa da paineira, reclamou, chamou a atenção, parou as máquinas!
Veio até o secretário de obras, que na época era um amigo nosso, para acalmar os ânimos e garantir que cuidariam para que nada acontecesse a nossa querida paineira. Afinal, depois de ter germinado em São Paulo, virado bonsai, viajado para outra cidade, não era agora, quando começaria sua liberdade, que a paineira iria morrer.
O que mais me surpreendeu foi o crescimento dela após o plantio. Foi vertiginoso! Parece que os treze anos de bonsai estavam guardando energia para explodir em ramos, folhas e galhos enormes. Em um ano ela já era uma árvore adulta! O engraçado é que o formato dela conservou um "ar" de bonsai.
Agora todo ano na florada eu tiro uma foto e mando para a minha sogra que não mora mais perto dela, e ela sempre me responde: "- Valeu ficar de plantão!"
Hoje, estamos quase em maio, quando o meu primeiro filho completa 27 anos. Nesse mês, no nosso caminho diário, podemos ver a paineira florida, linda!
Ela encanta todos no bairro com sua florada. Sempre que olho para ela me lembro de tantas coisas, mas principalmente do passeio de carro para ver naquela rua cinzenta aquela paineira maravilhosa, que nos deu as sementes.        



Ah! E esse meu filho, que nasceu na florada da paineira, pegou a mania de plantar do pai. Anda com sementes para lá e para cá. Só que a especialidade dele é fazer mudas de abacate!