segunda-feira, 4 de abril de 2016

Tentação


Eu lembro bem do aroma daquela manhã de sábado... era doce, suculento, amarelo claro e quente. Como pode ver a lembrança desse aroma, apesar do tempo, ainda está muito viva dentro de mim, como seu pudesse senti-la, vê-la e prová-la.
O que já era para estar em meio ao nevoeiro da memória, como todas as coisas corriqueiras da infância, esse aroma permanece pairando no meu ar.
Estávamos brincando de boneca, com a televisão ligada. A casa em perfeita desordem. Eu só conseguia pensar no cheiro adocicado que vinha do fogão.
A mãe da minha amiga estava fazendo cocada e o aroma preenchia todos os cantos da casa e me possuiu com uma força tão grande, que me vi tomada de desejo.
Um desejo descontrolável por algo que eu ainda não tinha visto, mas de longe eu já sabia que era algo incrivelmente bom.
Eu precisava provar aquele o sabor. A partir daquele momento, o meu corpo já não me obedecia.
Mas, por alguma razão, eu sabia que não deveria me aproximar do fogão. Eu deveria esperar o doce ficar pronto e foram horas agoniantes.
Ali, pela primeira vez, eu soube o que era tentação. Querer muito alguma coisa e não poder tê-la na mesma hora.
Eu era uma criança, mas já sabia que tinha que controlar alguns instintos. Se não fosse assim, teria voado naquela panela.
Talvez a mãe da minha amiga fosse uma bruxa e estivesse preparando uma porção mágica no seu caldeirão, com o objetivo de nos enfeitiçar. Se era isso, funcionou.

Ou melhor, talvez a magia estivesse no coco.
O coco poderia estar impregnado pelos cantos dos orixás da Bahia, com feitiço para transformar criancinhas inocentes em seres cheios de desejos e pensamentos pecaminosos. A gula não é pecado?
Quando senti o aroma daquele doce me tornei uma viciada. Eu só queria prova-lo, ainda agora quando eu me lembro dele a minha boca se enche de água.
O tempo passou rápido demais. E nada do doce fica pronto. Eu observava cada movimento... da colher de pau girando devagar na panela; da panela indo até a bancada de concreto; do doce cremoso sendo colocado mansamente sobre a bancada.
Eu acompanhava cada etapa como se fosse um culto e só podia pensar que estava mais próxima de matar aquele desejo.
As horas passaram... e nada. Eu fui embora daquela casa sem nunca ter provado o doce.
Desde então, tenho procurado saciar o desejo daquela cocada. Já provei várias delas, em muitos lugares, mas nunca é a mesma coisa.
No fundo, eu sei, que é uma busca inútil. Essa cocada existe só para mim. É o meu primeiro desejo proibido. É a minha tentação.
O que é a tentação se não sonhar com algo que não se pode ter?