sexta-feira, 6 de maio de 2016

A boa senhora




Era uma vez em um pequeno vilarejo, uma senhora muito bondosa que morava sozinha e o seu passatempo era observar as pessoas que passavam em frente à sua residência.
Ela percebia que as pessoas andavam sempre com pressa, como se estivessem correndo contra o tempo.
A maioria estava sempre com a cara séria e poucos paravam para cumprimenta-la.
A senhorinha sentiu- se invisível. E essa sensação não foi nada boa.
Após um dia e uma noite, ela teve uma ideia.
A boa senhora resolveu preparar alguns bolos deliciosos e deixa-los expostos na calçada para quem quisesse prova-los.
Dessa forma, pensou ela, aquelas pessoas ficariam felizes e seriam seus amigos.

- Quem sabe elas param para um dedinho de prosa?

Enquanto preparava os bolos, a boa senhora imaginava o futuro cheio de novas amizades e boas conversas.

- Parabéns, o seu bolo está maravilhoso, diria a moça alta e de olhos sempre tristonhos, esboçando pela primeira vez um grande sorriso.
- Obrigada por isso, eu saí de casa atrasado e não comi nada até agora, falaria o estudante afastando pela primeira vez os olhos do seu iphone para olhá-la.
- O seu bolo me dará força e ânimo para enfrentar mais um dia de luta! Explicaria o senhor de calça caqui e sapatos gastos, demonstrando uma elegância que contrastava com a simplicidade de sua roupa.

Com pensamentos positivos e amorosos, ela fez os bolos e viu-os crescer até ficarem com uma aparência de dar água na boca.
Ela colocou a mesa na calçada e arrumou com a sua toalha mais bonita. Finalmente, trouxe os bolos e ficou aguardando as pessoas se aproximarem.
Para que não tivessem dúvida, escreveu em uma plaquinha: Grátis.
No primeiro dia, poucas pessoas pararam para comer o bolo.
Desconfiadas, pensando que se tratava de algum truque, elas evitavam conversar com a senhorinha. Comiam rapidinho, agradeciam e iam embora.
Mas, logo, um número maior de pessoas começou a parar na mesa para provar os deliciosos bolos.
O que a boa senhora imaginou estava se tornando realidade.
As pessoas paravam para conversar, elogiavam os seus bolos e algumas até perguntavam sobre a sua vida, como se estivessem realmente interessadas.
A boa senhora estava no céu.

Mas, toda ação tem sempre uma reação. E quando se trata de seres humanos as reações são imprevisíveis.
As pessoas antes agradecidas com a atitude bondosa da boa senhora, com o passar dos dias, ficaram mais exigentes.

- A senhora poderia variar as receitas, são sempre os mesmos bolos! Reclamavam.
- O bolo da semana passada estava mais bonito do que o dessa semana. Cobravam.
- Porque a senhora não faz bolos com menos açúcar? Eu estou engordando. Criticavam. 

O que no começo era visto como uma boa novidade, com o tempo foi se tornando um aborrecimento.
Mas, isso estava longe de ser a pior coisa que poderia acontecer.
A senhora se irritava de verdade era quando as suas vizinhas apareciam e levavam bolos inteiros para as suas casas, sem se preocuparem que poderia faltar para servir às pessoas que passavam pela rua com fome.

- A senhora acredita que eu ia fazer um bolo hoje? Mas, como à senhora já fez e está dividindo com estranhos, eu acho que não custa nada dar um bolo para a sua vizinha, não é? Diziam com a maior cara de pau.

Primeiro veio à vizinha do lado direito, depois do esquerdo, depois da frente...
A boa senhora já não sabia o que fazer para resolver aquela situação e sentiu saudades do tempo em que era invisível.
Um dia, com toda delicadeza, tentou explicar para a dona Jurema, a vizinha mais gulosa que alguém poderia ter, que o bolo era para ser dividido com quem passava na rua, mas por que fez isso!
A mulher tirou o sorriso da cara na mesma hora, elevou a voz e prometeu que aquela seria a última conversa entre as duas, enquanto ela vivesse, pois não queria ser amiga de alguém tão egoísta, que prefere ajudar estranhos a ajudar à vizinha.
A boa senhora, que um dia tinha sentido vontade de conversar e conviver com outras pessoas, concluiu que era hora de mudar de tática.
Ela desistiu dos bolos. E, ao invés de seres humanos, decidiu dedicar o seu afeto aos animais e as plantas. Pelo menos, eles não podem decepcioná-la.
 


Quem passa em frente à casa dela, se não estiver com pressa, agora verá uma placa onde está escrito:

“Pra alma vazia, não há bolo que sustente”