terça-feira, 17 de maio de 2016

Caminhos de Santiago de Compostela | 2ª Semana



Por Sonia Lopes

Segunda semana do Diário da Sônia - De Fuente de Cantos a Casar de Cáceres

Dia 6 - Fuente de Cantos - Zafra - 24,4km


Hoje me dei mal. Depois de atravessar dois arroios e já tendo andado uns 8 km, tive que dar meia volta. Até tentei atravessar aquele maldito córrego. Mas o bastão afundou o suficiente para sacar que a água bateria além da minha cintura. Frio de 5 graus. Vento... e não havia mais nada a fazer a não ser voltar os 8 sofridos km até a auto pista.



Na volta encontrei 2 franceses e retornamos  arrasados.  Mais uns 4 km, molhados e putos, pq sei lá. ... o hospitaleiro ou alguém poderia ter avisado que haveria possibilidade de acontecer esse transtorno. Voltamos ao ponto de partida tendo andado mais do que seria o previsto até Zafra. 


Tomamos um táxi ( mais de 1 hora para conseguir um táxi.) Estamos no Albergue Franciscano tentando secar não só as botas como também as mochilas. A igreja de Zafra é uma obra de arte. Mas hoje... sinceramente, não recomendo a Via de la Plata. Acho que a falta de abrigos por até 25km faz com que esta rota seja perigosa demais. O lado bom é que não estou nem resfriada. Ainda.



Dia 7 - Zafra - Villafranca de los Barros - 20,2 km


Depois do piti de ontem, fui atrás de uma capa de chuva dessas tipo camelo e de polainas impermeáveis. Mais um dia chegando escorrendo água gelada é certo que vou parar no hospital.  Aliás foi difícil dormir com o tosse tosse do albergue. 

 
Uma peregrina holandesa  (não sei escrever o nome dela) jogou a toalha. Convidou a mim e a Cristina (Suíça) para a casa dela em Amsterdã.  Só não topei pq já tinha comprado a capa. Cheguei a sentir uns calafrios, tomei logo um analgésico e me aboletei no saco de dormir bem cedo. 


De manhã, cheia de coragem com minha super mega blaster capa, dei de cara com um céu azul claro magnífico.  Pqp! Tá de sacanagem.


O caminho foi lindo. Em boa parte havia um perfume de olivas! E nestes 20 km haviam 2 poços ótimos para sentar ao menos uns 15 minutos. 


Na chegada o tempo foi nublando e pude estrear minha maravilhosa capa. Amo mais que as polainas impermeáveis.  Comprei também um corta vento pink levíssimo. 


Na entrada de Villafranca tem um enoórme garrafa de vinho. Gostei demais da conta! E... Estou de bem com a Via de  la Plata.  Mas é difícil!

Dia 8- Villafranca de los Barros - Torremejia - 27 km


 Saí mais ou menos 1 hora depois dos peregrinos. Acho que somos uns 8... no máximo 10 no percurso a pé dessa leva. Claro que se eu parar 1 dia, conhecerei outra leva de peregrinos. 


Como sai mais tarde, fiz os 27 temperamentais kms sozinha. 


De boa... gosto muito. Gente falando na minha orelha o tempo todo é um porre. Ah! Importante. Descobri hoje que na Via de la Plata não tem transporte de mochila. Não que eu queira, mas é bom que fique registrado. Foi um longo dia. 
Trecho sem descanso. Estou muito cansada e então vou resumir em lições:


Lição 1: Nem sempre barulho de caminhão é caminhão. Pode ser barulho de vendaval.
Lição 2: Em 6 horas podem acontecer 3 vendavais intercalados por sol e nuvens calmas.
Lição 3: Se o vento está mais ou menos, a chuva fininha, e vc tem vontade de ir ao toalete, faça isso imediatamente. A situação pode piorar. Muito.
Lição 4: Não tente fazer xixi sem tirar a capa de chuva e a mochila. Melhor ficar ensopada de água gelada e suja de lama. Acredite.
Lição 5: 27km podem parecer 50.
Lição 6: pode ser que chova mais tarde? Então já saia com as merda das polainas impermeáveis vestidas. Ou não conseguirá vestir aquilo em pé.
Amanhã etapa curtinha. Ufa! Preciso comprar mais duas calcinhas. Fui.

Dia 9 - Torremejia - Mérida - 16km


O trajeto teria sido de 33 km até Aljucén, se eu não tivesse caído de quatro por Mérida.  Impossível passar direto por aqui. Conforme entrava no centro, meu queixo ia caindo e a pele arrepiando. Resolvido: Arrumei um hostal, comprei um bilhete que dava direito a visitar todas as atrações e fiquei perambulando por ruínas e museus até agora. 


No império romano, capital da Lusitânia. A maioria dos edifícios , templos e teatros são desta época. Depois foi ocupada pelos árabes, e uma peleja dura com o reis católicos... Bom.  Uma salada de ocupações que não vou escrever. Até os fraceses invadiram. 


Disse um dos guias que foi nesse período que foi perdida grande parte do patrimônio histórico e artístico.  Andei muito aqui e não me perdi! Até dei informações! Kkkkkk! 


Comi muito... bebi um tanto... me emocionei em muitos lugares. E agora vou dormir no hostal que fica junto a maravilhosa Ponte Romana. Vai ser difícil pegar no sono... mas, tenho que tentar pq por conta desta parada, amanhã terei que encarar quase 38 km. Feliz da vida!


Dia 10 - Mérida - Alcuéscar - 38km


 Acordei super cedo... garrei o caminho antes das 6 hs. O dia foi amanhecendo rápido e o céu ficou azul clarinho com poucas nuvens. Ufa! Gente, que bonito foi hoje.


Além da beleza, hoje haviam pontos onde pude sentar e esticar as pernas. Muitas, mas muitas moitas de alfazema durante todo o percurso. O perfume ia e vinha com força. Muitos esquilos!!!  Este trecho é preservado. 


 Parecia um filme... Se de repente passasse um cavaleiro medieval com uma espada eu acharia normal. Mas o que apareceu foi um porco enorme... nada parecido com a Pepa. Depois vi que haviam vários! Falei que sou vegetariana. Sussa.


Na chegada de Alcuéscar bateu um enorme cansaço. Mas não há do que reclamar. Estou em uma espécie de seminário...Vai ter missa, bênção para os peregrinos e uma refeição conjunta com os religiosos. Ainda bem pq hoje não ando mais nem até a esquina. O albergue religioso funciona por donativos. Inclusive o jantar. Muito bonito. E o banho super quente deu uma levantada.

Dia 11- Alcuéscar - Valdesalor - 26.1 Km



Ô dia lindo! Céu limpo bem cedinho e depois nuvens super bem vindas pq o sol aqui sabe ser forte. Estreei meu protetor solar!!! Nem acreditei! O mais bacana é que o trecho de hoje incluiu duas vilas. Casas de Don Antônio e Aldea del Cano. 


E ainda uma parada estratégica em uma ponte medieval com bancos, mesa, e... meio que debaixo da ponte romana um lavabo romano. Hehehe! Parei em tudo que foi canto. Comi, bebi umas cervejas e os 26km.sei foram suaves. 


Valdesalor não tem nada de interessante. .. É uma cidadezinha nova, com um albergue bem ruinzinho. Mas sem esta parada a etapa ficaria longa demais. Só tomar banho  e dormir pq amanhã ficarei em Cáceres! Patrimônio histórico!  Animadissima aqui.

Dia 12 - Valdesalor - Casar de Cáceres - 23 km


Nada de nuvens.  E nada de novo no trecho até Cáceres. A sinalização da via é muito boa e não tem como se perder. Aliás, devo dizer que não sou mais uma desorientada... Quando as flechas amarelas demoravam a aparecer, eu ficava tensa.  Agora, espio o sol, descubro pegadas e até o momento tô batendo um bolão neste quesito.


 Nem comprei guia. Uso um aplicativo que baixei para pesquisar e tem sido o suficiente para planejar o dia seguinte. Mas, e Cáceres? Uma linda cidade medieval. Com aquela plaza mayor cheia de bares com suas mesas ao sol.


Cheguei antes das 10 e as pessoas estavam tomando o café da manhã ainda. Até ali foram 12 km que atualmente são nada para mim. Visitei o que deu... mas sei lá. Achei meio barulhento. Dei uma rodada bebi cañas com limão antes do meio dia com um grupo de peregrinos franceses e caímos fora. 


Mais 11 km e chegamos a Casar de Cáceres, onde estou alojada. Outra cidade com construções da idade média.  Inclusive o albergue. Gostei daqui! Comida ótima e dá pra ficar lagarteando na praça em frente ao albergue. Preciso descansar muito porque amanhã farei um dos trechos mais difíceis da Via. 33 km de terreno com umas subidinhas  sem nada no meio. Vou até uma venda comprar comida para carregar...

Até a próxima terça-feira, com mais um resumo da semana do Diário da Sônia :)