terça-feira, 31 de maio de 2016

Caminhos de Santiago de Compostela - 4ª Semana


Por Sonia Lopes

4ª Semana do Diário da Sônia – De Fuenterroble a Granja de Moreruela


Dia 19 - Fuenterroble - San Pedro de los Rosados - 28 km


A caminhada foi longa e o terreno difícil. Em compensação as paisagens eram de tirar o fôlego. As subidas também me tiraram o fôlego.
Os últimos 4km foram em uma reta asfaltada que não tinha fim. Fiz me arrastando e me dei de presente um quarto individual em um hostel.


Hoje não vou dividir o quarto com 30 negos. E terei um banheiro só meu! Nada de roncos nem de chulé. Só o meu. Quero chegar inteira em Salamanca...


Aliás, amanhã vou fazer meus cálculos e, se pá, dormirei duas noites lá. Comi aqui no hostel mesmo, onde também funciona o restaurante da cidade. "O" mesmo por que só tem 1.

Dia 20 - San Pedro de los Rosados - Salamanca - 23 km

Outro trecho lindo e custoso. O hostel não oferecia café da manhã e não tinha um boteco aberto. 4 km depois, passei por uma vila chamada Morille e tudo fechado também. O jeito foi seguir com minhas castanhas e água. Ainda bem que o dia estava lindo.


Salamanca já se mostrava faltavam ainda uns 10 km. Metida, imponente, como quem sabe que é uma das cidades mais lindas do mundo, levou um século para chegar. Já na periferia se nota o cuidado com as trilhas e sinalização.


É uma cidade universitária, jovem e pulsante. Nos suntuosos palácios, funcionam bibliotecas, oficinas de turismo e universidades. Tecnologia de ponta e construções romanas em um casamento perfeito.



Estudantes turistas e centenas de bares cafés e restaurantes nas calçadas... Nenhuma foto faz jus ao que acontece aqui. Todo o centro romano, todas as construções mereciam fotos... É tanto que cega a gente. Este é um lugar para ver ao vivo. Não adianta ver fotos.




Dia 21 - Salamanca - Calzada de Valdunciel - 18 km
 

Espero carregar um pouco da beleza e da energia que Salamanca me mostrou. Depois do meu amado Bairro São Francisco, lá em São Sebastião, este é o lugar que eu escolheria para viver. Por enquanto, né? Pois ainda tem muito lugar neste mundo véio sem porteiras por onde pretendo caminhar.


Falando nisso... a caminhada de Salamanca até aqui foi por campos de cevada. 18 km entre plantações e nenhum bar para uma cerveja com limão. Sacanagem.
Hoje conheci um monte de gente... peregrinos que ainda não tinha encontrado. Adoro isso! Novas histórias.


O pequeno percurso de hoje me possibilita cozinhar no albergue, ter mais tempo para papear, lavar minha roupa e descansar as pernas. A cidadezinha é acolhedora. E o tempo está mudando...

Dia 22 - Calzada de Valdunciel - El Cubo de la Terra del Vino - 20km 



Este trecho foi meio chato pq acabou sendo uma reta interminável.
De um lado, autoestrada. E do outro lado cevada, cevada e mais cevada. Lá pelas tantas me passa um caminhão imenso abarrotado de porcos. Carga viva. Terrível para mim. Larguei os bastões e tapei os ouvidos, mas já era tarde.


Fiquei ouvindo por quilômetros os gritos dos animais. O cheiro ainda sinto. Quando passo pelas criações o cheiro é forte, claro. Mas sei lá... Não se compara. Acho que o medo ou a dor que eles sentem deve exacerbar... Quero esquecer isso.


Daí cheguei na cidade. Pense em um lugar sem nada! É aqui. Rodei para fazer ao menos uma foto. Tá difícil!
As coisas boas são que havia uma feira na praça e eu comprei cogumelos frescos, ovos, pimentões, queijo, tomates e vou fazer um super jantar. Também peguei pão e vinho. La cuenta: 4,2 €. O albergue tem uma cozinha razoável. Ah! Esqueci de dizer que o albergue fica grudado ao velório municipal. Agora é rezar para que ninguém morra hoje.


E foi isso. Amanhã faço 13 km ou 32. Não tem meio termo... Na hora eu vejo.

Dia 23 - El Cubo de la Terra del Vino - Zamora - 33 km
 


Quando cheguei em Villa Nueva del Campean (13,5 km), sentei no boteco para decidir se ficava ou não. Ainda nem tinha dado 11:00hs... tomei uma cerveja, comi um bocadillo e pá! Estava super bem para andar mais 19 km até Zamora. Cansei. Mas deu.


Não sabia que Zamora era isso tudo. Totalmente romana, sem nada de influência árabe na arquitetura. Não que isso seja ruim. Sevilha é quase toda árabe e é linda. Mas essa coisa romana é majestosa. Grandiosa. E a uniformidade faz a gente se sentir em um filme.


Dois museus legais e bares lindos nas plazas. As igrejas são uma atração à parte. O albergue de peregrinos é super diferenciado, funciona com donativos e encontrei amigos que eu não via há alguns dias.


Teve jantar comunitário, música e vinho. Comi, bebi, cantei e vou dormir cedo pq estou morta. Fui.

Dia 24 - Zamora - Montamarta - 18 km





Poxa... o Albergue Municipal de Zamora surpreendeu em tudo. No prédio romano, nos beliches novos, altos (vc não bate a cabeça cada vez que senta) e sem ruídos, na ceia gratuita e alegre, no puta café da manhã e no despertador. Vc acorda com um crescente canto gregoriano. Vontade de ficar! Mas nem tente pq não pode. Uma tarde, uma noite e tem que cair fora.


No caminho até Montamarta nada de novo... Estradinha de terra em meio à plantações de cevada.
Montamarta é feiosa, mas ao redor da igreja é muito simpática, uns 30 mts do hostel em que estou. O albergue é fora da cidade... Os outros peregrinos devem estar por lá. Pq aqui só estamos eu e a austríaca Christine.





Não tem wi-fi aqui e por isso vamos traçar um Menu de Peregrino no restaurante. Aproveito para atualizar o blog... Mas, antes, uma passadista na igreja e rolou uma novena. Claroooo que me infiltrei. E fiz amizade com as senhoras. Adoro!!!


Dia 25 -Montamarta - Granja de Moreruela - 22,4 km


Bela noite de princesa em um quarto com calefação só pra mim. Tomei um café reforçado e caí na estrada.
Manhã gelada com vento forte. Chuva que ia e vinha. Vc veste a capa, o sol aparece e com o calor do exercício começa a suar. Tira a capa. Começa a chover. Veste a capa. Sol. O chato disso, é que para vestir a capa, tem que tirar a mochila... São muitas presilhas. Primeiro tem que afrouxar, soltar e depois ajustar tudo...


Passei por lugares interessantes hoje. Pena que a chuva atrapalhou as fotos. Nos 22 km havia um bar. Nojento. Não deu coragem de comer ou usar o banheiro. Mas cheguei em Granja de Moreruela. Faltando uns 200 mts caiu uma chuva sem aviso prévio. Me ensopou enquanto vestia a capa! Pqp!
Cheguei no albergue gelada e tinha fila para o banho.

Só tinha vaga para as camas na parte de cima dos beliches. Não tem cozinha... Ô dia duro! Mas, peregrino que é peregrino só agradece. E eu sou! Larguei a mochila e fui esfriar a cabeça na praça. Esfriar as ideias pq a cabeça estava congelada. Bateu o sino da igreja. Missa. Bora lá. É raro estar nas pequenas cidades nos dias em que o padre celebra. Eles fazem rodízio nos pueblos. As pessoas aqui gostam de ver peregrinos na missa. No caminho francês não ligavam. O padre gente boa abençoou meu Tao.



Amanhã me despeço dos amigos que seguirão pelo caminho Sanabres. Na verdade, acho que só eu vou até Astorga... Muitos comentaram que o caminho francês está cheio demais. Por isso preferem ir pelas montanhas. Mas quero completar a Via de la Plata. E só de pensar em chegar a Astorga outra vez meu coração se aquece. E ainda vou encontrar uma amiga em León! Ebaaaaaaa!!!!


Ps: apareceu um guia aqui no albergue e arrastou a mim e mais 3 peregrinos para visitar as ruínas de um Monasterio. Caraca! Valeu todo o perrengue de hoje! Fui!

Até a próxima terça-feira, com mais um resumo da semana do Diário da Sônia :)