sexta-feira, 24 de junho de 2016

Quero ter razão ou quero ser feliz?




 Por Giobert M. Gonçalves

Quando ouvi essa frase pela primeira vez na minha vida, não esperava que fosse ter uma medida para os meus próprios atos. Foi uma amiga que me perguntou e eu não lembro bem ao certo em que contexto ela disse isso, mas passei a utilizar em diversas circunstâncias da minha vida. Quando algo me incomoda pergunto se eu estou querendo ter razão ou se eu estou querendo ser feliz.
Moro com minha mãe que já está com idade suficiente para apenas ser feliz. Mas como o filho que sou, muitas vezes eu queria impor a ela o que eu achava sobre as coisas (para não dizer de outra maneira – as minhas ridículas verdades), então, quando ela fazia algum comentário eu contestava. Esse era um caso de me perguntar: “Quero ter razão ou quero ser feliz?”.


E percebia que eu queria ter razão. Procurei ser generoso comigo mesmo e percebi que esse “eu” era uma criança de uns oito anos, perdido no tempo e sem forças para se impor com aquela mãe que apenas cumpria o seu papel e dentro das condições dela naquele momento. Opa! Eu queria esse comportamento de oito anos? Esse comportamento infantil? Sim, eu queria, eu estava totalmente a mercê desse comportamento involuntário. Isso era o pior...

Até tornar-se consciente,
o inconsciente irá dirigir a sua vida,
e você chamará isso de destino.
(Carl G. Jung)

Passei a trabalhar os anseios desse garoto dentro de mim. Eu já comentei aqui sobre a mente não diferenciar passado, presente e futuro (leia a parte II da Estratégia da Felicidade aqui mesmo no blog Encantes). Para ela, tudo o que você está pensando agora, está acontecendo agora. Usando essa estratégia, eu comecei a imaginar em que momento específico esse garoto estava tentando se defender para poder ser ele mesmo. E lembrei-me de uma cena onde eu era muito pequeno. Minha madrinha estava me dando comida na boca e eu estava fazendo onda, ou talvez não estivesse gostando daquela comida e, do nada, levo uma sapatada na minha cabeça. Uau! Doeu! Minha mãe tinha acabado de me dar uma sapatada só porque eu não queria comer algo? Na minha lembrança percorreu uma onda de injustiça e de impotência que meu coração até doeu. Só de lembrar a cena, todos os sentimentos voltaram. Raiva! Não lembro do resto da imagem, mas senti meu soluço no peito.
Como já ensinei na Estratégia da Felicidade, utilizei o terceiro passo – Sentimento Positivo (se não leu ainda, corra pra ler aqui mesmo no blog Encantes). Olhei para todos aqueles sentimentos que surgiram dessa imagem, acolhi no meu coração, vi bem essa criança que estava por trás do sentimento e entendi o que ela queria nesse momento - ser ouvida; ela queria me contar toda a tristeza dela entre os soluços do seu coração. Eu me enterneci com ela, eu a abracei e a amei. Ela demonstrou a raiva pela mãe e eu aceitei. Disse que estava tudo bem. Ela foi se aquietando e quando ela ficou mais calma eu ofereci a memória de um momento em que a mãe tinha sido muito amorosa, quando ela ensinou brincadeiras divertidas. A princípio a criança relutou, mas eu insisti delicadamente com mais memórias de amor e carinho entre ela e a mãe e ajudei-a imaginar como teria sido aquela lembrança se a mãe tivesse tido todo esse carinho. Ela me respondeu que a mãe teria dado, ela mesma, a comida em sua boca. Disse para ela aproveitar esse momento, aproveitar toda a sensação positiva desse momento; isso mesmo.  Por fim eu perguntei como estava agora e ela me respondeu que estava tudo bem. E com essa sensação, eu fui conduzindo a criança pela sua linha do tempo, suas memórias, transformando cada lembrança com essa sensação de carinho que ela estava sentindo. Ela foi crescendo de outra maneira, sentindo-se acolhida, amada e respeitada até ficar adulta e retornar ao tempo presente sendo eu mesmo, amado.
Passei a olhar minha mãe querendo ser feliz. Não é preciso ter razão.