sexta-feira, 1 de julho de 2016

A nova era da filosofia


Escultura "O Pensador", de Auguste Rodin
Por Andressa Rodrigues

O que motivou milhares de pessoas a enfrentarem horas de fila, no frio, para assistir de perto à gravação de um programa sobre filosofia? Esse fato, considerado inédito pela própria organização do evento, ocorreu no último dia 23 de junho, na cidade de Campinas, no interior de São Paulo. A disputa por um lugar na plateia se deu, especialmente, à participação de dois pensadores que abrilhantaram a noite: o filósofo Clóvis de Barros Filho e o historiador Leandro Karnal. Eles debateram, por cerca de duas horas, o tema “felicidade”.

O filósofo e o historiador são celebridades, atualmente. Professores universitários, autores e palestrantes, eles fazem parte do contemporâneo mundo filosófico brasileiro, que conta, também, com nomes como Luís Felipe Pondé e Mário Sérgio Cortella. Esse grupo conquista, diariamente, milhares de fãs e seguidores nas redes sociais, com incontáveis visualizações de vídeos na internet.
Eu - confesso - descobri essa realidade sem querer. Não sabia que a filosofia está tão na moda! Só quando passei a assistir com mais assiduidade ao telejornal da TV Cultura, à noite, é que conheci esses pensadores. Aliás, o jornal exibiu, no próprio dia 23, uma matéria sobre esse novo fenômeno. De acordo com representantes das livrarias visitadas pela reportagem, os títulos de autoajuda estão perdendo espaço para os de filosofia. Traduzindo para uma linguagem mais mercadológica: as pessoas andam consumindo filosofia!

Eu ainda tenho o livro Filosofando!!!
Eu estudei a disciplina na faculdade. Já meu irmão, três anos mais velho que eu, teve a matéria no então colegial (Ensino Médio). Nós dois usamos o mesmo livro, “Filosofando”. Na época, anos 90, “filosofar” era coisa de “bicho-grilo”, gente que “viajava nas ideias”, tanto que, me lembro, na faculdade onde me formei, o curso de graduação de Filosofia era gratuito, devido à baixíssima procura. Então, por que agora, mais de 20 anos depois, as pessoas passaram a se interessar por filosofia? Por que agora, na era das mídias digitais, dos relacionamentos virtuais? O que está acontecendo com a nossa sociedade?
Recentemente, a revista Galileu publicou um texto que ilumina essas questões. De acordo com a matéria, pensadores europeus passaram a se dedicar, de dez anos para cá, na popularização da filosofia. São autores novos, que resgatam antigos ensinamentos como forma de ajudar as pessoas a enfrentar eternas questões da humanidade, como conceitos de justiça, ética e verdade. Mas, também, que auxiliam nos problemas contemporâneos, como a ditadura da magreza ou o excesso de estímulos provocado pela internet. Para Peter Singer, professor de filosofia da Universidade de Princeton (Estados Unidos), “o momento é propício, pois vivemos em um mundo de acúmulo de informações e falta de significados. As pessoas estão se vendo forçadas a pensar filosoficamente para encontrar um sentido na vida”.

Gravação do Programa Café Filosófico
No site Moda Manifesto, a filósofa brasileira Ana Carolina Acom concorda com essa explicação: “Não é à toa que a filosofia está em voga hoje, nesse mundo onde é realmente difícil absorver e pensar ao mesmo tempo. Ao invés de aceitarmos e engolirmos o ‘boom’ de informações que nos chegam como se fossemos uma caixa que acumula coisas sem serem digeridas, devemos questionar. ‘Por que?’ Essa é a pergunta básica da filosofia. É importantíssima a capacidade de análise crítica das coisas para buscar qualquer conhecimento. Senão, é só informação, conteúdo vazio que acumulamos e aceitamos”.
Arrisco em dizer que, para nós brasileiros, essa busca por respostas também se deve, especialmente, ao momento político difícil que vivemos hoje. Se Cazuza dizia que seus heróis morreram de overdose, os nossos correm o risco de padecer na cadeia, ou pior, na impunidade. Estamos carentes por alguém que nos representa. Isso nos causa indignação. Mas passado o estado de ira, caímos na reflexão e é aí que a filosofia entra. Os questionamentos devem, assim espero, nos impulsionar para agirmos melhor. Para mostrarmos, seja na urna ou nas ruas, que não aguentamos mais tantas mazelas. O tempo de aceitar sem questionar não se sustenta mais. Assim, desejo que a filosofia, para cada um de nós, transponha o poder de autoajuda e valha, primordialmente, para a transformação ética e moral que tanto ansiamos.

P.S.: A gravação do programa Café Filosófico, com Karnal e Clóvis de Barros, está disponível no YouTube, através do link https://youtu.be/TdAMIEpc7WM