segunda-feira, 4 de julho de 2016

Nem tudo pode ser substituído


Neste final de semana, eu aproveitei para organizar as louças, reunindo-as de acordo com as suas funções, formatos e cores, de uma forma que eu possa encontra-las com facilidade.
Eu aproveitei para verificar as condições dos jogos de bowls, se estavam completos ou se sofreram algum desgaste por causa do tempo de uso, como lasquinhas e rachaduras, por exemplo.
Claro, que ao olhar com atenção eu notei alguns defeitos e fiquei aborrecida porque gosto muito dos meus jogos de cerâmica, a ponto de lembrar onde comprei cada um deles. 


Foi então que eu lembrei que, na cultura japonesa, as peças de cerâmica quebradas tem um significado especial e não são jogadas fora ou deixadas de lado quando apresentam algum defeito.
Pelo contrário, as peças são reparadas através da técnica Kintsukuroi, que utiliza uma mistura de laca e pó de ouro, o que ressalta e valoriza as rachaduras.

Eles acreditam que quando algo sofre algum dano, passa a ter uma história e que se há conserto, vale a pena repará-lo.


A maioria de nós não tem esse costume e basta uma louça apresentar uma lasquinha para nos livrarmos dela. Isso quando não nos livramos de um jogo completo porque uma peça está quebrada. 
Nós vivemos em uma época onde consumimos muito mais por prazer do que por necessidade e substituímos as coisas antigas pelas novas sem nenhuma dor na consciência, mas existem exceções.
As exceções ocorrem quando perdemos um objeto que nos faz recordar momentos e pessoas especiais. 


Quando isso acontece deixa de ser apenas uma louça quebrada. Isso aconteceu comigo quando eu quebrei a tampinha de um açucareiro antigo que ganhei da minha avó.
Ela decidiu me presentear com ele ao perceber o meu interesse e dentro colocou um recadinho que guardo até hoje:

“Para minha neta querida, com muito amor e carinho, da sua avó que muito te ama. Zenita”.

Bem, quando a tampinha quebrou por um descuido, eu tentei repará-la de todas as maneiras, mas não consegui e finalmente decidi aceitar que algumas coisas não podem ser restauradas para voltarem a ser como antes.
A peça incompleta continua tendo uma grande importância para mim, eu acho que hoje mais do que ontem porque agora eu sei o quanto seria triste se ela não existisse mais.
O açucareiro se transformou em um pequeno vasinho de flores, enfeita a mesa de jantar em alguns dias de festa e nos outros dias fica em uma posição de destaque na estante. Adoro olhar para ele. 


Às vezes eu penso no quanto seria bom se pudéssemos consertar os relacionamentos da mesma forma que consertamos um vaso de cerâmica, colando os caquinhos com paciência e sem desanimar diante de um corte ou de uma peça que não se encaixa com perfeição.
No quanto seria especial se dedicássemos um tempo maior para restaurar algumas amizades e histórias de amor ao invés de simplesmente jogá-las fora por não serem perfeitas, sem dar tempo para que pudessem se transformar em algo valioso e único.  

E que seria realmente incrível se conseguíssemos conviver com as imperfeições dos outros, sem querer escondê-las e sem desprezá-las, aceitando que no fundo todos nós somos iguais, mas em tempos diferentes.    

As peças quebradas são apenas algo a ser descartado se não fosse o valor sentimental que damos a elas. São apenas objetos como outro qualquer se não fosse o amor e o afeto que simbolizam para nós. A mesma coisa acontece com as pessoas.