sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Gil Pacini - Barroso e Moraes (parte 2)

A Igreja Matriz de São Sebastião foi originalmente construída no século XVII
Andressa Rodrigues

Toda vez que conheço uma cidade nova, um dos primeiros lugares que eu gosto de visitar é uma igreja, de preferência a mais antiga. Não por promessa ou simpatia religiosa. É por curiosidade histórica mesmo. Aprecio a construção, os detalhes e as relíquias. Sinto admiração e respeito pelos indícios que apontam a cultura local. Aproveito para agradecer ao 'Amigo lá de cima' pela oportunidade daquele passeio; e de olhos fechados me desligo por alguns instantes, tentando imaginar como era a vida da comunidade na época em que a edificação foi erguida.


Quando vim para São Sebastião pela primeira vez, há 14 anos, não foi diferente. A Igreja Matriz, a Praça do Coreto e as ruas do entorno são um convite para uma interessante viagem no tempo. Fotografias antigas da cidade expostas em alguns comércios do centro instigam-me ainda mais o interesse em desvendar os primórdios sebastianenses.
Recentemente, quem saciou um pouco essa minha curiosidade foi o ex-prefeito Gil Pacini. Ele nasceu em Ilhabela (em 24 de agosto de 1920), mas veio morar em São Sebastião quando tinha apenas um ano de idade. Perguntei a ele “como era São Sebastião naquela época”. Seu Gil, então, contou-me diversos fatos sobre sua infância e mocidade. Também lembrou momentos singulares da história do município:
“Dois tios meus vieram da ilha para cá montar seus negócios. Um deles manteve uma chácara, na qual meu pai trabalhou e eu o ajudei. Nós cuidávamos dos animais e tirávamos leite da vaca para vender na cidade. Também trabalhei no balcão do armazém do meu outro tio. Oferecíamos de tudo: arroz, feijão... Já minha mãe contribuía fazendo doces caseiros. Eu os vendia pelas ruas da cidade... Cocada, doce de abóbora... Nossa vida era muita dura. Éramos de família pobre. Só estudei até o quarto ano primário, porque precisava trabalhar. Aos 18 anos eu deixei São Sebastião para servir o Exército. Quando voltei, uns quatro anos depois, fui ajudar meu pai no barzinho que ele tinha. Conseguimos aumentar o negócio e montamos um armazém. Ficava na Rua São Benedito, ao lado do grupo escolar, então se chamava ‘Casa São Benedito’. Modéstia a parte, nos tornamos uns dos três mais importantes armazéns da época! Vendíamos de tudo! Pela manhã, eu costumava bater nas casas para ver o que as pessoas precisavam. Trabalhávamos com caderneta. Anotava os pedidos, providenciava os produtos e os clientes pagavam no fim do mês. Eram professores, promotores, gente importante. Eu tinha bons relacionamentos. Foi um desses conhecidos que me convidou para disputar as eleições municipais. Venci pelo Partido Liberal e assumi em 1960”.

Nesse dia em que conversamos (em junho desse ano), Gil Pacini fez um resumo de sua vida antes de tornar-se político. Muitas datas e nomes lhe fugiram da memória, mas teve um fato em especial que ele me contou com uma riqueza de detalhes impressionante:
“Você encontrava bebida, serragem, carne seca, arroz só em armazéns. Não havia outro tipo de comércio. Quando eu tinha uns 8, 9 anos, eu ajudava meu pai a buscar essas mercadorias na praia. Era assim: a carga vinha de barco e, como não tinha onde atracar, o barco parava no canal; uma canoa ia até a embarcação para apanhar os produtos; os produtos eram colocados na areia da praia e lá ficavam a espera de serem transportados até os armazéns. Meu pai tinha um carro de boi, então nós fazíamos esse transporte. Aliás, meu pai arranjou dois bois: o Barroso e o Moraes”.


Não contive o riso. Seu Gil falou dos nomes dos bois com muita naturalidade. E ele me explicou toda essa logística como se a tivesse feito no dia anterior... Que delícia foi conhecer e conversar com Gil Pacini! Tivemos poucos encontros, mas todos muito agradáveis e animados. Por isso, mais uma vez digo a ele (em pensamento): Muito obrigada!".


Gil Pacini