sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Relações



Por Giobert M. Gonçalves

O primeiro relacionamento é comigo mesmo, eu estou imerso dentro do útero e para mim, tudo é uma única coisa. É meu momento (narcisista). Como não há a percepção do outro, a única referência que tenho sou eu mesmo. Será? Fico imaginando qual seriam as reflexões uterinas. Quais dúvidas eu teria, será que me agrado? Será que gosto dos meus pensamentos? Convivo bem comigo mesmo?


Claro que não é nada disso! O feto vive em função apenas de sensações. Não são as sensações que conheço, não tenho visão, mas tenho audição e tenho tato, mas não tenho nem paladar e nem olfato. Então, apenas com o tato e a audição tudo o que percebo é através do que mamãe sente. Ao mesmo tempo, não diferencio a mamãe. Mamãe e eu somos uma coisa só. E começo a aprender sobre o mundo através dela.
E em algum momento nasci e tenho minha primeira experiência sobre a separação. Tudo que vinha naturalmente agora eu preciso pedir. Aprendo a rir ou chorar para ter minhas necessidades atendidas. Começo a me relacionar com o mundo de maneira direta – percebo que eu não sou mamãe e mamãe não sou eu. Quando a vejo (pela primeira vez e sempre) meu coração se acelera e fica quentinho. E me apaixono perdidamente porque é ela a responsável por toda a minha felicidade (e segurança). Ao mesmo tempo, dá medo se não sou atendido imediatamente e posso ter experiências antagônicas: ou adquiro confiança se minhas necessidades são atendidas, ou fico amedrontado se elas não são atendidas. Posso ficar preguiçoso se vem tudo fácil e na hora que eu desejo, ou irritado se demoro em ser atendido. E mais um pouco: aprendo o amor e o ódio de uma relação. E também o medo... E se mamãe me abandonar?
Aí aparece outro. Ele aparece e traz toques e cheiros diferentes da mamãe, também percebo que esse papai rouba a mamãe de mim. Vou lutar com ele porque a mamãe é minha. Se eu não conseguir ficar com ela, posso morrer! Se mamãe for embora eu não vou sobreviver! Mas percebo que mamãe se divide entre eu e o papai. E o papai até é divertido, ele me joga pra cima e sorri pra mim. Começo a gostar dele e ficar curioso com o que ele traz de diferente. Eu quero esse papai que some e aparece com coisas novas. O papai me segura forte e com esse toque poderoso eu me apaixono. Mas será que mamãe vai ficar triste se eu ficar com papai? Será que ela vai me querer de novo? Isso me preocupa, me deixa em dúvidas. Opa! Percebo que tem outros! Tem irmão, irmã, tio e tia, vovô, vovó. E cada um tem um jeito e começo a me divertir... Mas sempre de olho no papai e na mamãe. Será seguro me relacionar com esses outros?
As relações aumentam e eu descubro amigos, colegas, estranhos e, um dia, eu vejo um outro que faz meu coração acelerar e ficar quentinho. Não lembro que já tive essa sensação em algum momento do passado, mas ela é familiar. É a namorada! E meu mundo passa a girar em torno do mundo dela. E ela sente o mesmo por mim. E nos olhamos nos olhos e sentimos juntos. Existem momentos de perfeito êxtase, mas alguns momentos de dúvida e medo. Será que eu vou sobreviver sem ela? E se ela me abandonar? Então eu caso. Pronto! Assim eu garanto a minha felicidade. Depois de algum tempo surge um filho... Que amor lindo! Nunca pensei que existisse amor assim. Eu me vejo nele e desejo para ele, tudo que eu ainda não pude ser. Vêm outros filhos e a vida segue.
Um dia aparece a outra. E meu coração se aquece novamente. Há muito ele não ficava mais quentinho e parecia que eu tinha até esquecido dessa sensação. A esposa também acaba conhecendo outro. E nos despedimos, um pouco com dor, um pouco com alívio. Os filhos já tinham partido e algo já havia sido cumprido. Mas dessa outra eu espero outras coisas, um mundo novo. E saímos juntos atrás de coisas que ainda não tivemos. Percebo que posso ser algumas coisas que eu ainda não tinha sido. Vou experimentando essa nova sensação e descoberta. Com calma, com alma.
Papai e mamãe se despedem. E eu relembro toda minha vida. Agradeço o amor e lido com a dor. Penso no fim, no sentido da vida. Outras pessoas vão se despedindo, pequenos e grandes amores. Vejo coisas que nunca tinha visto. Até então, eu apenas vivi? Olho para o que eu fiz da vida buscando completar com coisas novas os pedaços que faltam. Começo a me perceber de verdade e me apaixono. Surpreendentemente, levei uma vida toda para perceber que me amo, que gosto dos meus pensamentos e convivo bem comigo. Fecho os olhos.