quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Esses incríveis jardineiros

Por Isabel Galvanese

Tive sempre muita sorte com jardineiros. Verdadeiros mestres das plantas!

Ao lado da nossa casa em São Paulo ficava a chácara Santa Cecília , do Seu Manoel , o melhor jardineiro que conheci. Eu, que começava a trabalhar com plantas, me tornei sua discípula e passava tardes conversando com ele para aprender tudo que pudesse. Como e quando podar, com o que adubar, plantas de sol, de sombra, nomes das plantas, era um mundo de conhecimento!


Seu Manoel era também um super cozinheiro. No fundo da chácara tinha uma grande cozinha com um fogão à lenha onde fazia, linguiça, preparava pimentas, vinagres, geléias e é claro uma pinguinha. Alí, no final de semana, ele reunia muitos amigos. Sabia levar a vida!

A chácara tinha muito movimento e vivia cheia de paisagistas e também amantes de jardins. Por isso no bar ao lado de manhã enchia de jardineiros atrás de trabalho. Esperavam calmamente que seu Manoel distribuísse serviço para todos. Chegavam cedinho e ficavam no bar tomando um pingado ou uma pinga mesmo, dando risada e tirando sarro um do outro.

 Quando comecei a ter meus primeiros trabalhos de paisagismo eu também ia pro bar encontrar um jardineiro que me ajudasse. Gostava muito de ir lá. Era um ambiente muito divertido. Falávamos dos trabalhos dos jardins bacanas que víamos por aí, das árvores que estavam florescendo, e também gostávamos de dar risada dos arquitetos ( não todos é claro!) que projetavam lugares para jardim e jardineiras que nenhuma planta poderia sobreviver.

O mais divertido era quando eles iam me explicar um caminho: -Você passa aquele Jacarandá, vira à esquerda e assim que terminar o muro de Hibiscos, é logo ali em frente a Magnólia. Eles se orientavam pelas plantas e viam o tempo passar pelas estações, flores e frutos. Muito sábios nas sua simplicidade. Esse foi meu maior aprendizado! 
Meu primeiro jardineiro foi Seu Vicente. Ele era muito capaz, não negava serviço, carregava vasos pesados, levava terra para as jardineiras mais difíceis, e tinha uma sensibilidade aguçada para sentir as plantas. Um verdadeiro dedo verde! Somente se Seu Vicente não podia trabalhar comigo eu conseguia ter outro jardineiro. Eles todos se respeitavam muito, eram como irmãos. Assim, na ausência de seu Vicente, trabalhei com o competente Agamenon, e mais tarde com o Dema, que era um tipo de Shrek, enorme, mal cabia no carro, mas muito doce e amoroso.

Juntos no trabalho demos uma nova vida em muitos jardins, e, se encontrássemos um bom cliente que curtia plantas, acabávamos ficando amigos e trocando mudas. Essa é a linguagem dos jardins, trocar mudas significa- "eu gosto de você".

Acho que um bom jardineiro chega a ser mais importante que o médico para uma família porque faz um trabalho preventivo antes que você fique doente. Não sei se sou só eu, mas ter por perto uma planta feliz com todo o seu potencial ativo traz uma energia muito boa!

Nunca me esqueço a declaração de Penélope, personagem do livro " Os Catadores de Conchas" ( Rosamunde Pilcher) , ao dizer que o dia mais feliz para ela era o dia que o jardineiro vinha. O jardim no livro tem um papel muito especial, quase um apoio da personagem para suportar viver.

Aqui , em São Sebastião, tive muitos jardineiros excelentes. Todos vindos de Porto união, cidade de Santa catarina. O Valdomiro, que trabalhou tanto e tão duro, conseguiu juntar dinheiro para comprar um sítio. Hoje ele planta orgânicos por lá. O Hélio, que ficou aqui em casa muitos anos e toda vez que nos encontramos parece que somos da mesma família. E, atualmente o Odair que tem uma incrível habilidade para transplantar e podar. acompanho suas vidas, conheço suas famílias e juntos aprendemos muitas coisas.

Falando tanto de jardineiros acabei de me lembrar do pintor francês Cézanne. Acho que para ele o dia do jardineiro também era muito esperado, não pelo jardim, mas por outro motivo. É que o pintor queria um modelo para suas aquarelas. Dá até para imaginar a ansiedade do jardineiro louco para cuidar das plantas e Cézanne pedindo que ele ficasse posando imóvel durante um longo tempo. Todo esse esforço, com certeza valeu a pena! Você não acha?