quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Bromélia X Dengue

Por Isabel Galvanese


Fiz uma vez um jardim que ficava na costeira da Praia das Cigarras e, enquanto os jardineiros estavam trabalhando, fui dar uma andada nas pedras. Gosto disso, olhar o entorno e o que cresce por aí. Uma das coisas mais difíceis para um paisagista é um jardim bonito à beira mar, uma vez que a maresia e o vento acabam por destruir tudo o que foi plantado. Nesse passeio me chamou a atenção uma bromélia que crescia sobre as pedras recebendo aquele chuvisco de água salgada a cada batida das ondas.
Dei um jeito de pegar uma mudinha e levar para casa.
Essa bromélia se multiplicou com muita rapidez. Fica uma época do ano com seu centro vermelho e tem as folhas cor de alface. Uso ela em muitos jardins que faço, e também dou para tudo mundo que tem casa de frente para o mar porque ela é muito resistente à maresia.
E, é claro, o jardim aqui de casa é lotado desta linda planta. Sempre achei muito difícil acreditar que a bromélia poderia ser um vetor de proliferação do mosquito da dengue. Fico muito incomodada quando recebo a visita dos agentes de prevenção da doença para inspecionar a minha casa.
Eles vão direto às bromélias, e sempre ao puxarem a água de dentro dela um monte de larvas aparecem. Fico com aquela cara de que estou fazendo algo proibido. Ainda mais quando eles falam sobre os casos de dengue, zika, chicungunha… fica difícil argumentar com tamanho problema.
E aí vem as sugestões.: -Arranque tudo! -Coloque cândida! -Regue com muita água até transbordar! e por aí vai… E na minha cabeça sempre pensei: - E as outras formas de vida que a bromélia hospeda? É sabido que dentro daquele copinho de água moram a fase larval e pupas de muitos insetos, desde libélulas, até uma variedade de pernilongos e também os girinos que vão se transformar nos mais maravilhosos sapos e rãs. 
Fiquei sabendo que a larva da libélula se alimenta de outras larvas como a do aedes aegypti. Enfim, dentro da bromélia existe um ecossistema saudável competindo.
Ao conversar com a turma da Dengue para me defender, não tinha poder de convencê-los. Como dizer que eu deixaria as bromélias como estão porque gosto de libélulas e do barulho dos sapos, fico feliz de ver a cor delas, que elas vão super bem porque são nativas daqui e tudo mais? A mata aqui atrás de casa está cheia de bromélias, devo arrancar tudo?


Três anos atrás visitei pela primeira vez o bromeliário do Jardim botânico do Rio da Janeiro (recomendo muito!) e tive a sorte de ver uma placa com o seguinte título BROMÉLIA X DENGUE. Resumia um maravilhoso estudo do instituto Oswaldo Cruz no qual, durante um ano, 156 bromélias situadas no Jardim Botânico foram monitoradas. 
O resultado do estudo aponta para o baixo índice de presença das formas imaturas do A. aegypti, gerando indícios que o trabalho de prevenção deve ser repensado. “Antes mesmo da realização de estudos sistematizados sobre o tema, medidas como a eliminação das bromélias e o uso indiscriminado de inseticidas já vinham sendo adotadas pela população”, afirma o biólogo Marcio Mocelin, que desenvolveu o trabalho. 
“Esta pesquisa indica que as larvas de Aedes encontradas nas bromélias não devem ser supervalorizadas no trabalho de prevenção e reforça que os esforços devem ser voltados para os focos principais, como caixas d'águas destampadas ou mal tampadas, tonéis, piscinas e outros depósitos com água parada”, adverte o biólogo.
Não tive dúvida, fui até secretaria do jardim botânico e pedi uma cópia do estudo. Imprimi várias e levei na prefeitura, distribui para os amigos, entreguei para meus amigos jardineiros e guardo uma aqui comigo para quando recebo a visita dos agentes da dengue que continuam a tirar água dos copinhos dentro das bromélias. Esse estudo ainda é pouco conhecido. Muita gente acha que as bromélias tem de ser exterminadas, e é preciso esclarecer que elas não são as vilãs e sim as amigas no combate. 
Elas tem dentro de si um ambiente saudável como um mini planeta em equilíbrio. E ao eliminarmos as bromélias estamos também eliminando os predadores naturais do mosquito da dengue. Já vi muitas plantas sumirem por preconceito e muita gente arrancar as mudas que tem em casa por pura ignorância. 
Tem as espirradeiras que por serem venenosas foram tiradas de muitos jardins, mas elas são venenosas se você come a planta, e eu nunca vi ninguém comer uma espirradeira, nem criança e nem cachorro. O mesmo com o comigo-ninguém-pode com suas lindas folhas verdes vibrantes. E quem não se lembra dos cravos de defunto, tão lindinhos, e que foram tão perseguidos que nem mais nos enterros são vistos?
Muito mais eficaz no combate à dengue seria fazermos mutirões de limpeza, reciclarmos nossas embalagens, compostarmos nosso lixo orgânico, arborizarmos nossas cidades. 
Enfim, optarmos por uma forma mais saudável de viver que não exclua toda a natureza do nosso entorno.
A quantidade de baratas, ratos, moscas e mosquitos que estão nas nossas cidades, de forma desequilibrada, são causadas pela nossa forma de viver e não pelo copinho-de-água-que-fica-dentro-da-bromélia. Vida longa às bromélias!