quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Entrevista - O fuxico de Janaína


No dia 20 de novembro, há 321 anos, morria Zumbi dos Palmares, um dos símbolos da resistência negra a escravidão no Brasil.
Não é preciso citar todas as influências da cultura negra em nosso país, mas de todas elas a religião ainda é vista com maior preconceito.
E como eu acredito que o preconceito está ligado à falta de conhecimento, eu apresento a entrevista da minha amiga querida Janaína de Figueiredo que, junto com o pai Atualpa, conhecido no terreiro como Tata Kajalacy. escreveu o livro "O fuxico de Janaína". 
Então...
...venha se achegando com a gente de mansinho, como as marolas que Kaitumba faz rebentarem na maré baixa. Pedimos licença ao grande Kalunga e a convidamos você a embarcar na jangada de um valente pescador conduzida pelo sopro de Matamba mar adentro da nossa prosa com o autor deste mês.


Vamos navegar pelas contações da Janaína de Figueiredo sobre outra Janaína, a que vive na superfície dos mares e lhe inspira. A verdade é que suas histórias chegam a se confundir. Saberes antigos de velho e de velha, cabelos de sereia e canção de caracóis são as linhas que tecem essas histórias.
Janaína de Figueiredo é autora do livro O fuxico de Janaína, e como sua personagem, ela é um pouco água e ventania, então segure o fôlego e vamos lá!

Janaína, assim como a protagonista de seu livro, você também é metade água e metade vento?
Sim, sou um pouco água e ventania. Dizem que quando eu nasci, meus cabelos eram como a espuma do mar e meu choro, uma rajada de vento.


Como foi seu encontro com a Janaína dos mares? Como foi reviver as diferentes versões desse mito, ao longo da vida?

Em algumas sociedades africanas o nome é sagrado porque explica a personalidade, a origem e a realidade da pessoa. O meu nome Janaína não me foi dado por acaso. Assim, encontrar com Janaína dos mares exigiu-me acionar minhas próprias lembranças e experiências em terreiro – minha origem e realidade. Janaína, a rainha do mar, me encontrou no fundo do Kalunga perdida em pensamentos distraídos e esquecida de seu próprio lugar. Com ela revivi outras histórias, minhas histórias, suas e nossas histórias.



As tradições de países africanos trazidas por nossos ancestrais são presenças cotidianas em nossas vivências. Ao mesmo tempo, em geral, conhecemos pouco a potência dessas culturas e ainda menos nos reconhecemos nelas. O que representa para você, o registro de um pedacinho do candomblé-angola num livro infanto-juvenil, hoje disponível nas estantes (físicas e virtuais) de livrarias e leitores?

Eu penso que existe uma produção literária afro-brasileira e/ou negra muito rica, mas infelizmente invisibilizada. A explicação está na nossa própria história. Nela, as representações negativas construídas em torno das populações negras explicam, em parte, esse não reconhecimento de temas, imagens e textos literários afro-brasileiros. De qualquer forma, acho que os espaços, ainda que pequenos, estão se abrindo para essa produção. Trazer, por meio da literatura infanto-juvenil, um pedacinho do candomblé-angola significa para mim trazer outras lentes sobre o mundo. A oralidade, os saberes, os mistérios, a ancestralidade, a natureza tudo isso faz parte de um outro jeito de pensar o fazer literário.

A narrativa de O fuxico de Janaína foi tecida de lembranças e cumplicidade de pai e filha. Essa é uma tessitura que vocês constroem juntos desde sua infância? Conte-nos um pouco sobre a experiência de costurar essas memórias junto ao Tata Kajalacy no fio das palavras.
Narrar é trocar experiências, diria W. Benjamin. A figura de meu pai, como narrador desse mito faz parte do projeto estético do livro. Isto porque tenta, de outra maneira, reinstaurar a marca da oralidade e da experiência, típicas de um narrador (um tata). São encontros de lembranças e vivências, entre meu pai e eu, tecidos pelo ato de recontar e de ressignificar. Na palavra, costurei andanças de pai e filha pelo universo das lembranças, da tradição e do imaginário afro.


Desafio Calango

E Janaína de Figueiredo também aceitou o nosso Desafio Calango. Esse divertido nome a gente emprestou da cantoria popular de origem mineira, que vem lá da Zona da Mata, em que os contendedores se desafiam no improviso. Cantando quadras e sextilhas em compasso binário sobre o dia a dia da vida no interior. É derrotado o competidor que esgotar primeiro suas rimas. No nosso Desafio Calango, lançamos uma série de perguntas para os nossos convidados e os provocamos a contar um pouco de suas próprias histórias. No final, você leitor é quem acaba desafiado a embarcar em uma viagem pelas obras preferidas dos entrevistados, os locais onde produzem e as aventuras em que mergulham na hora de criar.

Para os destemidos que se aventuram pelas suas histórias, quais surpresas eles podem encontrar?

Em O Fuxico de Janaina, as aventuras são apimentadas. Segredos, saberes antigos de velho e de velha, quizilas de caçador, cabelos de sereia, canção de caracóis delineiam essa história. Ela nos tira de um lugar já sabido e nos é apresentada como um sopro forte de Janaína.

Qual o livro mais fantástico pelo qual você se aventurou? Quais aventuras você encontrou por lá?

Eu gosto de muitos, difícil escolher. Os livros e suas histórias são para mim escolhidos de acordo com o meu momento. Atualmente, tenho percorrido pelos escritos do moçambicano Mia Couto. Tem um conto chamado O menino que escrevia versos, que me fala muitas coisas. Esse conto trata de um menino que sonhava e escrevia versos. Mas, seus pais o achavam bem estranho e o levaram ao médico. O menino representa a quebra de padrões causando estranhamento ao outro. O desfecho desse conflito é muito bacana!

Em quais peripécias você se envolve na hora de criar?

O cotidiano e o universo imaginativo das crianças são minhas principais ferramentas de criação. Imersa neles, pululam histórias. Elas me acordam a noite, conversam comigo e enquanto eu não dou vida a elas fico meio agitada e à parte do mundo.


O Fuxico de Janaína me acompanhou por muito tempo me desafiando por demais. Em alguns momentos até brigamos. Isto porque eu não queria quebrar a marca de oralidade da história. Essa relação de escrever algo que pertence ao universo da oralidade traz muitas tensões para o processo criativo. Mas, consegui – eu acho - encontrar um ponto de unidade entre as linguagens.

Quem é a criança provocadora que te instiga a encarar o desafio de escrever um novo livro?
Eu tenho três filhos lindos que me inspiram a escrever, Catarina, Leonardo e Lucas. São leitores críticos da minha produção. Acho incrível a forma como lidam com o mundo!


Também tenho crianças de terreiros que me dão força para criar. De alguma forma, os meus textos buscam traduzir, reelaborar, expressar imagens dessa infância em terreiro.

Como é o lugar onde você cria? Está mais para uma floresta encantada, uma mansão mal assombrada, um grande sertão, ou a Terra do Nunca?

O lugar onde eu crio é o lugar que me cria: encantado, misterioso e colorido. Entre veredas e dendezeiros, lá está ele me envolvendo e me levando para a Terra do Nunca, onde mundo é moringa e pedras são miçangas.


Janaína é uma figura que está presente em diversas tradições culturais brasileiras, e muito ligadas a um tipo de devoção aos mares. A prática de culturar e presentear a Mãe D’água no Brasil remonta a metade do século XVII e pode ser encontrada nas tradições indigenas, europeias e afro-brasileiras. O mito de Janaína que eu ressignifico, apesar de ter percorrido a tradição afro-brasileira, traz também todo esse imaginário coletivo.
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*Janaína de Figueiredo é filha de Ataualpa de Figueiredo Neto, o sacerdote Tata Kajalacy, "narrador que ajudou a tecer os fragmentos místicos" da obra. Antropóloga e pesquisadora das religiões afro-brasileiras, em especial, o candomblé angola

Fonte: Blog Aletria