sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Quem ama também sente inveja

Atenção: Esse texto é uma mea culpa deslavada.


Por Daniela Carvalho

Aconteceu há pouco tempo, quando eu passei por uma fase complicada e precisei tomar muitas decisões que me deixaram bastante ansiosa e insegura.
A princípio, resignada, eu fui lidando com as situações: a cirurgia da minha filha, a tensão das provas de vestibular do meu filho, o assalto a minha residência, internação da minha avó e as chatices eventuais do dia a dia.  
“A vida vem em ondas, como o mar, num indo e vindo infinito”, como diz a música interpretada pelo Lulu Santos.

Pensando agora acho que durante todo o tempo em que eu estive envolvida por esses acontecimentos, remando de frente ao mar revolto, esse tal de infinito foi o que mais pesou porque eu gosto de ter o controle, adoro prazos.

- Vai doer, vou chorar, sentirei saudades, vou ficar com medo? Ok, mas até quando?

Definitivamente, convivo mal com os infinitos, mas durante o tempo em que as ondas me reviraram dos avessos, eu continuei firme.   
Ao escrever isso, me lembrei de quando era mais jovem, metida à surfista (o que desde o início se mostrou um grande equívoco!), um dia resolvi arriscar e entrei em um mar bravo, com ondas enormes.
Então, eu comecei a remar de frente para as ondas com toda a minha coragem e prepotência, mas eu fui ficando cada vez mais cansada e quando percebi estava levando muitos “caldos”, gíria que para minha geração significava ser derrubada pelas ondas até quase se afogar.
Após afundar três ou quatro vezes, beber litros de água salgada, eu lembro que ouvi o meu amigo gritar:

- Daniela, sai do mar. Você vai morrer!

Eu saí meio humilhada, é verdade, mas saí.
Naquela época, tão jovem, eu ainda não tinha me dado conta do quanto eu era privilegiada por sair dali, pensando apenas na minha sobrevivência e nada mais.  
Aliás, eu não tinha me dado conta de um monte de coisas, por exemplo, que algumas vezes eu escolheria me afogar em lágrimas, mas mesmo assim iria preferir o mar revolto que se tornaria a minha vida, indo contra tudo e todos.
Mas, naquela época, eu era muito jovem para pensar nessas coisas.

O mar, a vida, a passagem do tempo, os restos na areia, as pessoas queridas, a saudade da infância, o tempo de construir, os castelos de areia, a evolução do ser, a história que passa de pai pra filho...

Se o jovem não tem noção das tempestades que poderá enfrentar, quando envelhecemos aprendemos a aguardar o arco-íris, que sempre aparece afinal de contas ou apesar dos pesares.

Mas...

Isso não quer dizer que eu passei pelo mar bravo sem fazer um pouco de drama. Ora, essa sou eu!
E se eu já sou meio dramática sem motivos, imagina quando existem motivos. Medo, angústia, dúvida, cansaço, etc...
Sobra mesmo para quem está mais perto, neste caso, o meu digníssimo marido.
Enquanto estava passando por esses momentos confusos e angustiantes, eu me segurava o tempo todo para não ser grossa ou injusta, eu fui simpática com um monte de desconhecidos, muitos que mereciam um chute na canela, em compensação, com o meu marido eu me comportava mal.
Nos dias em que fiquei fora de casa, eu não liguei para ele nenhuma vez. Não que eu não sentisse saudades, sentia sim e como!
Mas, por uma razão que vem de alguma parte obscura, eu não liguei.
E quando ele me ligava para saber sobre as crianças e sobre mim, eu respondia de forma curta e grossa, com a minha melhor voz de fuzilamento.

No final, eu tascava algumas perguntas cheias de más intenções:

- E você, o que fez hoje? Foi na academia? Correu?

Pra quem ainda não sabe, o meu marido – ao contrário de mim – é um atleta. Ele sempre vai à academia, chova ou faça sol, então, eu já sabia que a resposta seria sim.
Mas, eu perguntava do mesmo jeito e por quê?
Ora, eu só queria ouvi-lo responder que sim, como se isso fosse condená-lo a pior marido e pai do mundo!
Ó... aquele drama que toda mulher casada e recalcada sabe fazer!
Horrível isso, mas é verdade. No fundo, eu queria que ele se sentisse mal por mim.
Não percebi logo o que eu estava fazendo, felizmente eu tenho um marido mais equilibrado do que eu e que não se deixa abater por qualquer coisa que eu diga.
Por isso, estou com ele. kkkk
Mas, eu percebo agora que o meu recalque tinha uma razão pior: eu estava com inveja dele. Pensei em usar o termo “inveja branca” para aliviar pro meu lado, mas não. 
Desde quando a palavra branca torna a inveja mais aceitável? Inveja branca, preta, azul, vermelha é uma merda.
Eu nutri um sentimento ruim, amargo e rancoroso pela pessoa que eu amo de paixão.     
Por isso, depois disso eu estou mais atenta. O amor não nos deixa imune à inveja.
Nós idealizamos o amor, como se fosse um sentimento superior e estivesse imune a inveja, rancor, dor de cotovelo, mas isso é coisa para os santos.
Os seres humanos não são tão perfeitos a esse ponto.
Quem ama é capaz de coisas boas e ruins, a diferença é que consegue perdoar com mais facilidade. No limite do bom senso, claro!
É importante estar atento para não desistir de algo que se quer muito por causa de comentários de alguém que te ama, conhece muito bem, sabe o seu ponto mais fraco e está mordido de inveja.
Feita a mea culpa, gostaria de dizer que nunca mais sentirei inveja do meu marido, que a partir de agora serei uma pessoa melhor e só serei grata a tudo, blá, blá, blá..., mas não estou ainda neste nível.

Não posso prometer que serei perfeita daqui pra frente, mas que oferecerei à ele e às pessoas que eu amo o melhor de mim.