quinta-feira, 2 de março de 2017

A terceira margem


Há pouco tempo, durante o encontro com o meu grupo de escrita criativa, eu li o conto “A Terceira Margem”, de Guimarães Rosa.
Conta a história de uma família que precisa aprender a conviver com a decisão do pai que, certo dia, sai de casa sem dar nenhuma explicação e passa a morar dentro de uma canoa.


A canoa permanece no meio de um rio, o pai rema de um lado ao outro e evita qualquer tipo de aproximação.
Essa aparente alienação do mundo e descaso com os sentimentos daqueles que o amam suscitam todos os tipos de questionamentos nos familiares.
O que o levou a partir? Há quanto tempo ele estava planejando fazer isso? Se alguém tivesse percebido sua intenção, teria conseguido faze-lo mudar de ideia?
Enquanto todos querem compreende-lo, o pai permanece distante. Ele vai para uma terceira margem, um lugar que só existe dentro dele, inalcançável para todos os outros, mesmo aqueles que o amam e desejam estar próximos.
A falta de uma explicação que pudesse condenar ou justificar a ausência dele, afeta a vida da esposa e dos filhos e faz surgir neles sentimentos inexplicáveis: medo da loucura; culpa por não corresponder aos anseios do pai; a admiração por sua coragem e capacidade de se adaptar a um ambiente desconfortável, entre tantos outros.
A sua partida terá sido uma fuga de um casamento sem amor, a realização de um sonho de infância ou ele apenas cansou da vida que levava, da casa, dos filhos, do trabalho?
É uma ausência que não pode ser esquecida, apesar de distante é como se todos estivessem presos a ele naquela canoa.
No final, só restam duas decisões: abandoná-lo à própria sorte ou permanecer observando-o de longe sem esperar nada em troca.
Quando nós discutimos esse texto riquíssimo de possibilidades, percebemos que não chegaríamos a uma única conclusão.
Para quem sonhava em mudar de vida, a partida do pai era um ato de coragem.
Àqueles que foram abandonados viam na atitude dele o desamor, o egoísmo.
Não importava a nossa conclusão, isso não mudava a história. Eu saí de lá ainda com essa ausência incômoda nos meus pensamentos.  
Existem ausências que nos consomem e nos adoecem. 
Elas gritam alto dentro de nós. 
Porque isso aconteceu? O que eu fiz para ele agir assim? A culpa foi minha? Eu poderia ter feito mais por ele? Tomei a decisão certa?  
Quanto mais penetramos nesta ausência de gente, ausência de resposta... despertamos os monstros que estavam adormecidos dentro de nós: angústia, depressão, tristeza, insônia, medo...  
Existem ausências que são tão poderosas que ganham vida, peso, cheiro, textura.
A gente não vê, mas sente a respiração dela, escuta a sua voz, observa quando ela toca em nossas mãos.   
São ausências que nos aprisionam quanto mais procuramos por respostas.
A ausência pode interferir em destinos e às vezes a única maneira de se libertar dessa constante falta de alguém - dessa presença oculta - é aceitar as coisas como são e amar mesmo na solidão.