domingo, 12 de março de 2017

Entrevista: Fábio Galvanese transforma matérias- primas abandonadas em móveis de design super atual



Há pouco tempo, Fábio Melchert Galvanese, deixou a vida agitada na capital paulista, onde trabalhava como engenheiro de produção em uma multinacional, e retornou a São Sebastião, no litoral norte, onde abriu a empresa Espiga Litoral, especializada em móveis feitos à mão, com matérias- primas reutilizadas.
Desde o primeiro projeto, uma cama de casal que criou para seu próprio uso até a cadeira tripolina, que hoje é vendida em uma das lojas mais bacanas de São Paulo, localizada na famosa Rua Gabriel Monteiro da Silva, nos bairro dos Jardins e também na loja deste Blog,  #Loja Encantes, muita coisa aconteceu na vida dele.   
Eu conheci o trabalho do Fábio através da mãe dele, a artista plástica Isabel Galvanese.   
Me apaixonei pela cadeira tripolina à primeira vista. É super funcional e moderna, apesar do modelo ter sido criado em 1877.  
Eu já tinha visto o Fábio em alguns eventos, mas conversei com ele pela primeira vez em um encontro de artesãos, que aconteceu no Tempo, um espaço de co- working. 
A conversa foi rápida, mas suficiente para perceber quanto o Fábio está entusiasmado com os rumos da sua vida. Leia a entrevista:  



Encantes - O que você mais gostava de fazer quando era criança?
Fábio - Na minha infância não gostava de ficar parado, tudo ao meu redor me impressionava e me dava estímulos para estar em movimento. A vela foi uma maneira interessante de eu criar concentração e transformar tanta energia em bons resultados. Levei o esporte muito a sério até os meus 19 anos quando me vi na necessidade de me aprofundar nos estudos acadêmicos atrás de uma profissão que pudesse me sustentar.

Encantes – Existe alguma ligação entre a profissão de engenheiro de produção e de designer?
Fábio - A faculdade de Engenharia foi uma ferramenta essencial para o meu modelo de negócio atual. Através dos números, tive a oportunidade de construir objetos de madeira e poder montar uma pequena empresa que fosse rentável. Por enquanto, estou deixando os estudos acadêmicos para o futuro e planejando realizar um curso voltado ao Design de Produtos, por agora vou me aprofundando nos estudos práticos que estão sendo mais necessários no momento. 

Encantes - O fato de sua mãe ser uma artista plástica serviu de inspiração para você seguir esse caminho? Ela me contou que quando você era criança, gostava de ficar junto dela no estúdio.
Fábio - A relação com meus pais sempre foi um pouco antagônica. A parte lógica e racional veio dos ensinamentos do meu pai, por estar sempre buscando a perfeição nas velejadas e nas velas que produzia para nossos barcos. Já a minha mãe tinha seu trabalho em casa e, portanto, após a escola era com quem passava maior parte do tempo. Na época ela está super envolvida com a cerâmica e por mais difícil que parecia produzir as peças, ainda tinha tempo e paciência para me ensinar. Nunca levei muito jeito para mexer no torno, mas aí já crescia uma vontade de querer começar projetos da matéria-prima e transformá-los no que a imaginação e técnicas permitiam.


Encantes - Conte um pouco como a marcenaria entrou na sua vida.
Fábio - Após a faculdade, eu estava trabalhando em uma dessas grandes empresas de Tecnologia da Informação. Não demorou muito para eu perceber que a minha vida não poderia estar tomando este rumo. Criado no litoral, eu e minha bicicleta éramos livres na cidade, perambulando para cá e para lá. Decidi que poderia voltar a morar no lugar onde cresci, usando meus conhecimentos de engenheiro de produção para trazer produtos a vida. 

Encantes – Qual foi o seu primeiro projeto de marcenaria?
Fábio - O meu irmão voltou do seu mestrado em Sustentabilidade na Suécia com sua namorada e tiveram que ficar com a cama de casal que eu dormia na época. Tudo conspirava para que eu começasse a produzir minhas próprias necessidades. Desenhei um projeto de cama e fui à madeireira comprar as tábuas para produzi-la. O projeto saiu melhor do que o esperado e quando meus amigos viram já tinham 3 camas encomendadas.   


Encantes - E como foi a descoberta da cadeira tripolina. Quando você conheceu esse design e porque ficou tão inspirado por ele a ponto de querer reproduzi-lo.
Fábio - A cadeira tripolina é uma invenção de 1877, desenvolvida como cadeira de camping de fácil transporte. Em uma segunda-feira quando minha mãe voltava do curso de pintura, ela trouxe esta cadeira e a minha primeira pergunta foi: "Posso desmontá-la e tentar fazer uma para mim?" 

Encantes – Foi simples reproduzir a cadeira tripolina?
Fábio - A primeira montagem foi a mais complicada, furos que não batiam, madeiras que rachavam e as peças não suportavam o esforço. Era um projeto bem avançado para meus conhecimentos de marcenaria, mas era justamente o que eu estava atrás, de um desafio bem cabeludo.
Aos poucos fui melhorando meu espaço de trabalho, criando guias inteligentes, comprando máquinas mais precisas e me aventurando em produzir em maior escala.

Encantes - Diga como é feita a tripolina. A criação dessa cadeira segue algum conceito? Quais os materiais que foram usados? Quanto tempo você leva para confeccionar uma cadeira?
Fábio - Estou sempre atrás de uma caçamba de demolição, de um deck antigo de Ipê, de algum amigo que tenha madeira estocada em casa. Assim começa minha busca por matéria-prima, que pode ser feita monetariamente ou na base da troca.
Os metais são feitos em São Paulo na Serralheria do meu tio que produz vasos e estruturas de metal e as sobras dos materiais são destinados às peças de conexão da madeira usada na Tripolina.
 Temos uma máquina de costura em casa que era utilizada para fazer a velas dos nossos barcos. Hoje em dia ela está sendo utilizada para costurar o tecido do encosto da cadeira, uma costura super simples e funcional com técnicas de reforço de vela para garantir melhor resistência.
Atualmente estamos produzindo uma cadeira em 2 dias, sendo feito por mês um lote de 10-12 cadeiras. Nosso principal foco é manter o capricho nas peças para que todas saiam com bastante qualidade.


Encantes - Além da cadeira tripolina, você já criou móveis para o La Petite Bistrô e também para o espaço de co- working Tempo. Como foi essa experiência? Pretende seguir essa linha ou vai investir em móveis com designer mais elaborado?
Fábio - Os projetos de marcenaria podem ser muito amplos e não tenho interesse em me especializar por enquanto em nenhum ramo. Justamente o que pretendo é ter o máximo de experiências no início da minha carreira para que eu possa optar pelo meu caminho com mais firmeza. A experiência de ter feito os móveis destes espaços também coincidiu com um momento de aprendizado com outro marceneiro de São Sebastião chamado Max, que abraçou a idéia junto comigo e pudemos trabalhar e trocar conhecimentos diversos.
Além disso, ainda me vejo um apaixonado pela vela e por cascos, lemes, bolinas, mastros de madeira. Tenho uma vontade de poder aproximar estas duas áreas e poder criar um pouco no meio náutico.

Encantes - Do processo que começa com a busca de ideias até a venda final da cadeira, o que mais te agrada e por quê?
Fábio - Na minha opinião é difícil você receber um agrado do seu trabalho melhor do que um feedback positivo de algum comprador da cadeira. Também sou muito receptivo com as críticas negativas porque isso nos da uma percepção diferente sobre o conforto e da estética de quem está usando a cadeira diariamente.


Encantes - Já tem outro projeto que deseja colocar em prática?
Fábio - Sim, estou com vários projetos em mente e que pretendo divulgar em nossa página Espiga Litoral no Facebook. Por enquanto é segredo, mas logo, logo todos vocês estarão sabendo.

Encantes - Você me disse que não sabe ainda se quer ser designer de móveis para o resto da vida, não é? Mas, você sabe o que não quer para a sua vida? Ou como deseja estar daqui a alguns anos?
Fábio - A minha personalidade não me deixa planejar a minha vida em longo prazo. No curto prazo estou sempre organizando minha oficina e tocando meus projetos com responsabilidade. Um pouco de incerteza na vida faz com que as fases que passamos se tornem mais intensas e emocionantes, particularmente isso me torna mais vivo. Estes últimos anos fizeram eu enxergar que o lugar onde estou desenvolvendo meus planos é essencial para eu ter forças para vencer os meus desafios. Estar perto da natureza, das praias, da floresta e do mar são essenciais para me dar energia e inspiração para criar, independente do material que eu estiver usando, quero produzir.

Encantes - Deixe uma mensagem para os leitores do Blog Encantes.
Fábio - Espero que todos possam ficar tão apaixonados quanto eu sou pela Tripolina. Esta cadeira está sendo utilizada para os mais diversos propósitos e sempre em busca de dar conforto e versatilidade para quem adquiriu. Então pegue seu livro, faça uma fogueira, chame os amigos, ponha uma boa música e aproveite esta cadeira em qualquer ambiente que quiser. 
Fábio, eu adorei a sua sugestão e também a sua entrevista!
A sua história é uma inspiração para outros jovens que desafiam conceitos, quebram todas as regras e não abrem mão da felicidade.