segunda-feira, 5 de junho de 2017

Bambu e não só Bambu

Por Isabel Galvanese


A Japan house, agora em São Paulo, é um espaço maravilhoso dedicado a difusão da cultura japonesa. Só existem mais duas no mundo, uma em Londres e outra em Los Angeles. O Brasil foi escolhido para receber essa incrível casa de cultura porque é o lugar onde mais tem japoneses fora do Japão.
Tive a sorte de visitar num dia em que ainda estava abrindo e tinha pouca gente. É um lugar para se ir com calma, ler tudo, assistir todos os filmes e se deliciar com a arte e o artesanato japonês.
O tema da exposição inaugural é o Bambu, planta tão importante na cultura japonesa. Está lá por toda parte, desde os jardins, a arquitetura, a cestaria, brinquedos, utensílios de cozinha, vasos de ikebana , até na arte contemporânea. Além da questão utilitária estética, o Bambu é reverenciado por fazer um paralelo com a filosofia Zen.
Suas varas são super flexíveis mas não se quebram, está bem enraizado e cresce para o alto, é simples sem muitos galhos ou folhas elaboradas. Além disso é uma planta oca por dentro representando o vazio necessário na meditação zen.
Fiquei sabendo na exposição que nós temos aqui no Brasil a maior floresta nativa de bambu do mundo, que fica no Pará. O bambu, tão antigo para os japoneses, está se tornado uma planta do futuro para muitos países, com a sua durabilidade e crescimento rápido tende a ser mais utilizada como alternativa sustentável na construção civil. São muitas as variedades, de incrível beleza.


Uma das partes que eu mais gostei na Japan house, foi a exposição das antigas cestas de bambu, com um design incrível , minimalista. Nada está ali sem que seja necessário. Fiquei curiosa com os formatos meio inusitados, algumas eram ovais, outras bem compridas, tinham tampas, outras tinham formas esquisitas. Só fui entender tal variedade quando li o texto sobre o mestre que tinha feito aquelas cestas.
Era um morador de uma região de agricultores e tinha um defeito físico que o impedia de trabalhar no campo. Começou então a produzir cestas de bambu que fossem muito úteis para seus colegas quando fossem trabalhar. Fazia visitas às casas dos agricultores para compreender que tipo de recipiente facilitaria o trabalho.
Se tivessem que passar por um corredor eram mais magras para facilitar a locomoção, eram maiores se o agricultor era forte, curtas se ele era baixo. As cestas criadas por ele são verdadeiras obras de design, precisas e adaptadas para cada situação. Feitas uma a uma com persistência e respeito ao coletivo, sem abrir mão da beleza.
Confesso que sou muito fã dos japoneses. Sempre aprendi muito com eles. Meus dois principais trabalhos, paisagista e ceramista, foram iluminados por japoneses.
Quando trabalhei em São Paulo, como paisagista, ia religiosamente toda terça e sexta-feira de madrugada no Ceasa. Era sempre muito visível onde havia a presença de um japonês agricultor. As flores e plantas estavam no seu melhor, embaladas com capricho e organizadas com espaço para que pudessem ser vistas e admiradas.
No box de um japonês não havia espaço para pressa, eu tinha que dedicar um tempo conversando, escolhendo, admirando. Com eles o ritmo era outro. Para uma jovem ansiosa, na época essa pausa foi de um incrível valor.
Aprendi a parar, conversar, e confesso que esperava a hora de me encontrar com eles. Ficamos amigos e parceiros fiéis. E não adiantava pedir desconto porque o preço era aquele e não mudava. Valorizavam seu trabalho.


Na cerâmica, essa relação com japoneses foi mais profunda e fundamental na minha formação. Com minha amiga-mestra-ceramista aprendi as bases da cerâmica e também uma maneira simples de viver. Não foi de maneira didática com muito falatório, foi por simples observação do seu jeito de encarar o trabalho e a vida . Suas peças me encantam, de design minimalista, inspiradas na natureza, tem uma incrível sensibilidade e qualidade. Muito me inspira também a forma como leva o dia a dia, simples sem excessos e valorizando os momentos de solitude.
Não tem muito tempo ela me deu mais uma lição de vida. Tem tido muita dor na coluna e depois de muito tratamento descobriu que teria que conviver com essas dores. Não conseguia trabalhar por muito tempo no seu ateliê que fica distante da sua casa morro abaixo. Trajeto que ela tem de percorrer diariamente com muita dificuldade.

Liguei para ela para saber como andava. Ouvi um barulho grande que dificultava nossa conversa:

_ Que barulho é esse?

_ Estamos batendo uma laje aqui em casa

_ Você vai ampliar a casa?

_ Não, estou fazendo um pequeno ateliê ao lado do meu quarto, assim posso trabalhar melhor com intervalos para descansar.

Extremamente inspirador! Na adversidade ela encontrou um jeito de se reinventar dando um outro ritmo ao trabalho que ela tanto ama e por onde se expressa.
Lembrei imediatamente do bambu que flete mas não quebra, que tem a base sólida e enraizada e cresce para o alto. 
Minha intenção ao começar esse texto era falar só sobre o Bambu, mas é impossível falar do Bambu sem falar dos japoneses!


* escultura com bambu tigre Conexão 2017/ Chikuunsai IV Tanabe