terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Burle Marx e a arte da paisagem


 Por Isabel Galvanese


“Mestre não é aquele que sempre ensina, mas aquele que de repente aprende” Guimarães Rosa

Essa frase do Guimarães, para mim, é a que mais se parece com o Mestre paisagista Burle Marx. Sou admiradora do seu trabalho, mas principalmente do seu jeito de viver, olhando ao seu redor e humilde para aprender.

Burle Marx passou sua infância no Recife, estudou artes na Alemanha, mudou-se para o Rio de Janeiro onde  conviveu com grandes arquitetos e artistas como Oscar Niemeyer, Lúcio Costa  e Portinari.

Veio das artes e por causa da sua paixão por plantas, herdada da sua mãe, transformou sua arte na arte da paisagem.

Estudei biologia na USP e como todo aluno da minha geração e de outras mais, tive aula com a Botânica Nanusa. Fazia parte do currículo uma viagem para a Serra do Cipó, onde andávamos muito, víamos muitas plantas e conversávamos muito!
Nanusa, era super amiga do Burle Marx e nos contava as mais incríveis histórias. Dizia que como paisagista queria muito conhecer as plantas brasileiras.  Ele sempre se cercava de pesquisadores e com eles ia à campo para descobrir e incorporar novas espécies para os jardins brasileiros.

Muitas espécies foram descobertas nessas viagens e muitas delas levam o nome de Burle Marx.

Nanusa contou que Burle Marx pediu uma vez  que ela desse uma aula para sua equipe de  jardineiros. Ela topou e ficou surpresa ao ver que o primeiro da fila era ele. Contava que quando pegou uma flor, abriu e mostrou com lupa os óvulos no ovário, e disse que o pólen cai no estigma e fecunda, ele chorou. Chorou de emoção. Dá para perceber que sua relação com as plantas era muito maior do que abastecer seus projetos, era uma paixão, respeito e inspiração.  Nem é preciso dizer que ele  se tornou  um importante ambientalista na defesa das nossas reservas naturais.

Burle Marx  assina importantes jardins  brasileiros em várias cidades mas principalmente em Brasília e no Rio de Janeiro. Um dos ícones do seu trabalhos é o paisagismo do aterro do Flamengo e a reforma do  calçadão de Copacabana.

É quase ridículo pensar que com a nossa incrível variedade de plantas, antes de Burle Marx, nossos jardins eram cópias dos jardins europeus, com roseriras, gladíolos, magnólias etc…. Para ele o paisagista, ao projetar, deveria observar  a natureza ao redor e trazer essas plantas para o jardim. Por isso  fazia viagens às reservas naturais observando o potencial ornamental das  espécies trazendo sementes e mudas para multiplicar criando um acervo e uma grande coleção.

Sua observação, sua parceria com os botânicos, suas viagens à campo e seu emprededorismo na  criação de viveiros,  foram muito importantes para que surgisse o verdadeiro paisagismo brasileiro. Mesmo ainda hoje muitos jardins são com espécies exóticas, mas já é possível encontrar muitas plantas nativas em viveiros, basta pesquisar.

Em paralelo ao paisagismo, Burle Marx  também desenvolveu uma incrível obra nas artes plásticas. Pintava lindas telas como seus jardins. Trabalhos orgânicos, com curvas bem delimitadas e um colorido muito especial. Dá para notar que para ele desenhar com tinta ou com plantas era a mesma coisa. 
 

Burle Marx foi, sem dúvida,  um homem multi-facetado que sempre esteve disposto a aprender e que com esse aprendizado nos ensina  a abrir novos horizontes e novas maneiras de olhar um jardim, não só como espaço de contemplação mas também um lugar necessário ao esporte, ao lazer, ou  a simplesmente respirar nas nossas cidades que cada dia estão mais sufocantes! Um verdadeiro Mestre!