quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

A beleza do Wabi Sabi


Por Isabel Galvanese


Alguns meses atrás, entrei em contato pela primeira vez com o termo , ou melhor, a filosofia Wabi Sabi. Queria entender porque alguns japoneses "consertavam" quebras da cerâmica com cola e pó de ouro.
E foi nessa pesquisa que descobri que essa colagem se chama Kintsugi, e é feita de acordo com a filosofia Wabi-Sabi.

Na cerâmica colada com pó de ouro, a trinca é valorizada e se torna o ponto mais importante da peça. Ressaltando o imperfeito que emociona ao primeiro olhar.
Wabi significa o oposto da ostentação, o contato com a natureza, a rusticidade, o simples, e Sabi é a impermanência da vida, a transitoriedade, a ação do tempo e suas marcas.
A soma das duas palavras, muitas vezes é difícil de explicar, mas acho que poderia ser a beleza da idade, das coisas imperfeitas, do acaso, do ciclo natural de crescer e decair. Ou talvez muito mais que isso.
As madeiras desgastadas com o tempo, as maçanetas sem esmaltes, as plantas que brotam no pé de um muro velho, as rugas do rosto, aquele livro desbotado de tanto ler, a pá de jardim um pouco enferrujada ou a poltrona velha gostosa de tanto sentar.
Se vemos beleza nisso tudo, estamos com um pensamento wabi sabi. Esse conceito vai contra a ideia que o requinte de um objeto está ligado ao seu preço, mas sim na sua simplicidade, sua idade, sua história.


Gostei dessa historinha que li no blog http://bujinkan-jiraya.blogspot.com.br , que diz mais ou menos assim:
"O termo surgiu no século XV. Um jovem chamado Sen no Rikyu (1522-1591) queria aprender a Cerimônia do Chá japonesa e foi procurar o grande mestre Takeno Joo. O mestre então mandou que ele varresse o jardim. Rikyu limpou o jardim até que não restasse mais nem uma folhinha caída.
Ao terminar, examinou cuidadosamente o que tinha feito: o jardim perfeito, impecável, cada centímetro de areia imaculadamente varrido, cada pedra no lugar, todas as plantas caprichadamente ajeitadas. E, então, antes de apresentar o resultado ao mestre Rikyu chacoalhou o tronco de uma cerejeira e fez caírem algumas flores que se espalharam displicentes pelo chão. Mestre Joo, impressionado, admitiu o jovem no seu mosteiro. Rikyu virou um grande Mestre do Chá e, desde então, é reverenciado como aquele que entendeu a essência do conceito de Wabi Sabi: a arte da imperfeição."
O maravilhoso músico, Leonard Cohen, flertou com a filosofia wabi sabi e escreveu essa frase,- “Existe uma rachadura em tudo. É assim que a luz consegue entrar” ...Lindo demais!
Como com a gente, durante a vida ganhamos muitas marcas e trincas, não só no corpo mas também nas emoções. Nosso crescimento está diretamente ligado em como lidamos com elas. São essas trincas que nos fazem únicos.


Agora, ao conhecer o Wabi Sabi, estou de braços abertos para as trincas que aparecem na cerâmica que faço quando saem do forno. Já comprei cola e pó de ouro!