segunda-feira, 14 de maio de 2018

Provocando o acaso: Primeiro dia no ateliê de Antônio Carelli


A simplicidade pinta um mundo mais bonito. Cantinho do galpão onde acontecem as aulas de pintura. 
O artista recortou pedacinhos de papel e tentava criar novas imagens, como num jogo de quebra- cabeças.
Após muito tempo neste processo, que exigia dele grande concentração, uma rajada de vento entrou pela janela do ateliê e levou os pedacinhos de papel pelos ares.
Quando os papéis caíram no chão, o artista imóvel observou- os e descobriu que o acaso tinha criado a imagem perfeita.  

- É preciso estar com a mente aberta para perceber que alguns “acasos” são como presentes em nossas vidas, do contrário podemos ignorá-los e maldize-los. Eu digo.
- Não apenas para percebê-los, mas também para provoca-los.

Quem me contou essa história, me desafiando a pensar além do óbvio e com ousadia foi um senhor de 91 anos, de olhos vivazes, o pintor Antônio Carelli.

Local da nossa conversa e onde acontecerão as aulas de pintura

Hoje, eu fui conhecer o ateliê dele, na cidade de Caraguatatuba, um lugar em meio à mata atlântica, repleto de referências de pintores e obras de arte. Quem me levou até lá foram as minhas amigas pintoras, Bel Galvanese e Bernadete de Lourdes Silva. 

Releitura de Michelangelo
Releitura de Modigliani
Apesar de eu ter ressaltado que o meu talento para pintura nunca (jamais!) se manifestou e que eu desconfio que tenha nascido sem ele, as duas ainda acreditam que eu vou me surpreender.  
Entramos no ateliê, um grande galpão, sentamos em roda, comemos bolo de laranja e tomamos café quentinho.
Quando ele ficou sabendo que eu gosto de escrever, me disse que a pintura vai me ajudar a olhar com mais atenção às coisas a minha volta e que isso se refletirá nos meus textos. Esse comentário me deixou animada. 

Tucanos, de Antônio Carelli

Releitura de Anjos, de Antonio Cordeiro. Escultura imensa, fica na entrada do galpão de pintura. para queimá-la foi preciso construir um forno especial
 Então, em seguida, passou a falar sobre o grande poeta, Ferreira Gullar, autor de “Poema Sujo”, sua participação no movimento na poesia concreta e as críticas que costumava fazer a arte contemporânea.
A Bernadete leu um trecho do livro “O Arco e a Lira”, de Octávio Paz, que fala sobre a importância da técnica na criação de um poema.
“A técnica é procedimento e vale na medida da sua eficácia... Cada poema é um objeto único, criado por uma técnica que morre no instante mesmo da criação...”.  
- Essa é uma aula de pintura ou de literatura? Ele brincou.

O pintor Antônio Carelli caminhando ao lado da querida Bernadete. 
Hoje não teve aula de pintura, mas sinto que aprendi muito em pouco tempo e estou pronta para deixar o acaso agir, quem sabe para onde ele vai me levar...
Para me despedir deste dia incrível, eu deixo você com um trecho de Poema Sujo, de Ferreira Gullar: 

turvo turvo
a turva
mão do sopro
contra o muro
escuro
menos menos

menos que escuro
menos que mole e duro
menos que fosso e muro: menos que furo
escuro
mais que escuro:
claro
como água? como pluma?
claro mais que claro claro: coisa alguma
e tudo
(ou quase)
um bicho que o universo fabrica
e vem sonhando desde as entranhas
azul
era o gato
azul
era o galo
azul
o cavalo
azul
teu cu
tua gengiva igual a tua bocetinha
que parecia sorrir entre as folhas de
banana entre os cheiros de flor
e bosta de porco aberta como
uma boca do corpo
(não como a tua boca de palavras) como uma
entrada para
eu não sabia tu
não sabias
fazer girar a vida
com seu montão de estrelas e oceano
entrando-nos em ti
bela bela
mais que bela
mas como era o nome dela?
Não era Helena nem Vera
nem Nara nem Gabriela
nem Tereza nem Maria
Seu nome seu nome era…
Perdeu-se na carne fria
perdeu na confusão de tanta noite e tanto dia