quarta-feira, 9 de maio de 2012

Fora de controle

Trim... Trimmm...Trimmmmmm

Todo dia ela acorda às 5h00. Ainda é noite quando se levanta da cama, pega o ônibus e chega à rádio aonde é responsável pela redação do jornal, que vai ao ar às 7h00.
Essa é a apenas a primeira etapa do seu dia. Na parte da tarde, ela pega o carro e segue para outro emprego, na cidade vizinha, aonde trabalha comprando e vendendo ações da telefônica.
Mas, isso ainda não é tudo. À noite, ela ainda vai para a faculdade, aonde cursa o último ano de jornalismo.
Nas horas vagas, ela cuida sozinha dos detalhes do seu casamento, que está marcado para dezembro. Formatura e casamento no mesmo ano, ufa!
Mas, embora ela teimasse em seguir com essa rotina insana, o universo tinha outros planos e...

... no dia seguinte, após ser pega dormindo em cima da mesa de trabalho, com o resto de dignidade que lhe sobrou, ela ficou sem saída e pediu as contas do segundo emprego.

Hoje, ainda pensando se tinha tomado à decisão correta, ela chegou do trabalho na rádio por volta das 13h00, comeu qualquer coisa que encontrou na geladeira e seguiu para cama.
Quando acordou o dia havia se transformado em noite. Uma chuva torrencial caia sobre a cidade.
Em pânico, com o coração disparado e uma forte dor na boca do estômago, ela pulou da cama, calçou as botas e correu para o ponto de ônibus.

- Meu Deus, será que vou conseguir chegar a tempo de fazer o primeiro jornal? Se eu não conseguir, vou perder o emprego, o meu chefe vai me odiar, todos vão me odiar. Cadê esse ônibus????

Com a alma encharcada, assim como todo o resto, finalmente ela fez movimento para o ônibus parar.
Somente quando conseguiu recuperar o fôlego, percebeu algo estranho: as pessoas pareciam mais falantes do que o normal e, ao olhar pela janela, viu que as lojas estavam abertas.
Lembrou que na pressa deixou o relógio em casa, sem ver outra saída, juntou toda a coragem que tinha e perguntou ao cobrador.

- Moço, que horas são?
- 7 horas.
- Do dia ou da noite?
- Da noite, moça.
- Pare esse ônibus agora, preciso descer!

Em desespero, atravessou a avenida movimentada, voltou a sua casa, pegou a chave do carro e foi para a faculdade, aonde apresentou, ao vivo, o telejornal.
Isso aconteceu comigo. Eu perdi o controle sobre o meu tempo e no final já não sabia a diferença entre o dia e a noite.
Há pouco tempo encontrei um amigo que me contou que, após algumas decepções, resolveu se afastar de todas as associações das quais participava. E não eram poucas.

- Tem hora que a gente perde o foco daquilo que é prioridade em nossas vidas.

Ele tem toda a razão. É como estar ligado no piloto automático e olhar a vida passar pela janela do carro, bem longe de nós.
Eu me lembro de outra época em que me dediquei muito ao trabalho, por um longo tempo até que um dia acabou.
Eu voltei para casa, mas ninguém precisava de mim.
Durante a minha ausência, os meus filhos tinham criado as suas próprias rotinas. Foi duro perceber que eu era desnecessária para eles.
Aos poucos, com paciência e grande dose de amor, eu fui me aproximando e mostrando que poderia ser importante na vida deles.
O mais desafiante foi fazê-los confiar em mim e criar uma nova rotina acreditando que dessa vez eu estaria ali, não seria algo temporário.
Foi uma dura lição que aprendi sobre o que acontece quando não dividimos o tempo entre o que é prioridade e o resto.
Se você está vivendo uma situação semelhante, espero que a minha história o alerte sobre a passagem do tempo porque as pessoas que amamos seguem o seu próprio ritmo e não ficam para sempre a nossa espera.