segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Entrevista - Vamos fuxicar com a Janaína?


 
A falta de tolerância religiosa tem causado estragos pelo mundo, com muitas guerras pipocando aqui e ali, por isso, é com alegria que eu escrevo o primeiro post do ano de 2016 para divulgar o livro “O Fuxico de Janaína”, escrito pela antropóloga Janaína de Figueiredo e o sacerdote Tata Kajalacy, que é Ataualpa de Figueiredo Neto.

Tata Kajalacy e Janaína Figueiredo são pai e filha, que juntos buscam novos caminhos para despertar a nova geração para importância de entender e valorizar a cultura africana como forma de combater o preconceito, principalmente o religioso.
Há tempos, eu acompanho o trabalho dessa dupla através da Acubalin (Associação de Cultura Banto do Litoral Norte), responsável pelo projeto Nkisi na disápora: raízes religiosas banto no Brasil, que criou um material didático e multimídia, composto por filme documentário e um livro educativo, para servir como instrumento de apoio para os professores das escolas públicas.
O livro “O Fuxico de Janaína” é a nova aposta da dupla e surge em uma época muito propícia, quando assistimos a humanidade caminhar para o abismo devido à falta de tolerância entre os povos.
O livro, publicado pela Editora Aletria e ilustrado pela artista visual, Paulica Santos, faz uso de uma linguagem lúdica, voltada para o público infanto- juvenil, para contar as lendas e mitos da cultura africana, resgatando um tempo em que o homem entendia que era uma parte do todo que o rodeava.
A história do livro gira em torno de Janaína, filha de Kaitumba, dona das águas salgadas, e de Matamba, senhora dos ventos. Menina-moça, de duas naturezas, Janaína oscila entre a calmaria e a tempestade.
Para falar sobre o livro, eu convidei a historiadora Janaína Figueiredo para uma entrevista. Ela arrasa, sempre! Veja o resultado.

Encantes – Como surgiu a ideia de escrever um Livro infantil sobre o tema do candomblé?
Janaína - O livro traz a primeira narrativa mítica escrita do candomblé angola. Muito se escreveu sobre os mitos e ritos yorubanos dando maior visibilidade aos orixás, mas nada ainda foi publicado trazendo em cena os inkisis e com eles a participação dos  povos bantos no Brasil. Apesar de ser unânime entre pesquisadores brasileiros quanto à contribuição desses povos na formação da nossa língua e cultura ainda são invisibilizados pela "orixalização" da cultura negra.

Encantes – Conta um pouco sobre a história.
Janaína - A ideia surgiu durante a minha pesquisa de doutoramento em que estudo a nação angola no litoral sul paulista. Eu percebi que as narrativas míticas do candomblé angola estavam muito no campo da oralidade, o que é muito interessante. Mas, dificulta o trabalho em escolas por exemplo. Eu sistematizei junto com Tata Kajalacy essas narrativas tendo como ponto de partida o meu próprio nome: Janaina. A minha experiência com as diversas e diferentes versões míticas desse nkisi chamado Janaina, somado às minhas lembranças em viver em terreiro de angola ajudaram a construção do livro. Assim, o livro foi tecido por várias vozes do angola costuradas por Tata Kajalacy, o narrador dessa história. Vale lembrar que foi fundamental as ilustrações de Paulica Santos. Essa ilustradora entendeu muito a proposta em traçar os inkisis dos mares (Janaina e outros) sem antropormofiza-los. Os cabelos para mim eram simbólicos, cabelos que são os movimentos dos mares.

Encantes – Foi complicado escrever o livro a quatro mãos, com o seu pai, como foi a divisão das tarefas?
Janaína - Não, não foi. Eu fui apenas uma interprete dos saberes de meu pai, assim como, das minhas próprias lembranças. Esse mito fluiu ao sabor das recordações de pai e filha. Ora, se aproximava mais do meu tempo e vivência, ora, dos saberes e lembranças de meu pai. A maior dificuldade foi manter a marca da oralidade. Fiquei muito entre um texto literário e as características da oralidade. Nós não queríamos que essa marca se diluísse, mas correríamos o risco das pessoas não gostarem, já que para muitas pessoas é um campo desconhecido.

Encantes – O nome da personagem principal é igual ao seu. Isso foi coincidência ou a história da personagem é baseada também em algum fato real da sua infância?
Janaína - Meu pai diria que coincidências não existem, rsrsrs. Janaína é uma divindade cultuada no candomblé angola e meu nome foi dado por conta do meu pertencimento nesse universo. Meu pai narra que quando eu nasci o mar estava furioso com raios e trovões o iluminando. Era o cenário de Janaína. Então quando meu pai me viu pela primeira vez na maternidade soube que eu era filha dessa Divindade, daí meu nome. Escrever sobre Janaina me deixou mais a vontade, pois toda a minha trajetória eu mantive contato com esse mito. É um mito que se entrelaça com a minha própria vida e lembranças.

Encantes – Que tipo mensagem esse livro deseja passar para as crianças ?
Janaína - Muitas mensagens, mas sobretudo a ideia de diversidade. Esse livro permite à criança entrar em contato com um universo cultural completamente diferente, com uma visão e saberes distintos desses ocidentais em que somos criados e nos quais nos formam. Também permite compreender o respeito à natureza como um valor que estruturou, no passado, algumas sociedades e culturas africanas. Nesse livro percorremos pelo universo banto resignificado no Brasil.

Encantes – Quanto tempo vocês demoraram para finaliza-lo e quando será o lançamento ?
Janaína - Demoramos dois anos para terminar e finaliza-lo. Lançamos no Rio de Janeiro e São Paulo.

Encantes – É mais desafiador escrever um livro para criança do que para adultos?
Janaína - Não sei dizer. Mas é muito instigante porque as crianças tem uma forma de compreender o mundo diferente. Eu tenho outros livros que serão lançados para crianças em 2016, não consigo parar rsrsrs.

Encantes – Após o lançamento do livro, existe expectativa de transformá-lo em uma peça de teatro ou outro tipo de material lúdico e didático ?
Janaína - Ainda não pensamos nisso, mas estamos negociando formação de professores tendo como base o livro.

Encantes – Você acredita que as crianças que vão ler o livro passarão a ter um olhar diferente, menos preconceituoso, para a religião candomblé ?
Janaína - Sim, acredito. E essa foi uma das motivações. Em um mundo que clama pela diversidade e tolerância, mas que aumenta cada dia as agressões e conflitos religiosos, me parece oportuno que se fale, se escreva sobre isso. Precisamos esgotar o debate. A literatura é livre para tratar o que for e da forma que for, mas pode ser uma boa metáfora ou pretexto para se pensar a vida e os dilemas humanos.

Encantes – Onde as pessoas poderão encontrar o livro. Deixe uma mensagem para os leitores do Blog.
Janaína - O livro está disponível nas livrarias: Cultura, Saraiva e Livraria da Vila em São Paulo. Também no site da editora Aletria: www.aletria.com.br.
Para crianças acima de 09 anos, pesquisadores, educadores e demais interessados o livro “O Fuxico de Janaína” traz um Brasil pouco conhecido e saberes que nos leva a pensar a relação entre o humano e o mundo. Para todos e todas: um mar de felicidades!

Cantiga
Nas ondas da praia
Nas ondas do mar
Quero ser feliz
Quero me afogar.

Nas ondas da praia
Quem vem me beijar?
Quero a estrela-d'alva
Rainha do mar.

Quero ser feliz
Nas ondas do mar
Quero esquecer tudo
Quero descansar.

Manuel Bandeira
Estrela da Manhã, 1936