segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Livro | A Guerra do Fim do Mundo, de Mario Vargas Llosa


O livro “A Guerra do Fim do Mundo, de Mario Vargas Llosa, possui 606 páginas, mas após terminar a leitura a sensação é de ter feito uma viagem ainda mais longa até as profundezas de um Brasil, onde a secura da terra parece sobreviver graças ao líquido derramado, misto de sangue e suor, das pessoas que teimaram em viver ali.

O autor narra a Guerra de Canudos através da saga de seus principais personagens, o que faz com que a história fique muito interessante, ainda mais porque eles são todos anti- heróis, pessoas de sentimentos intensos, nem sempre bondosos, nem sempre ruins. Seres humanos curtidos pelo sol do sertão.
Você não vai ler a história, você vai vivenciá-la. Prepare-se em alguns momentos para perder o fôlego ao tentar acompanhar os passos largos de Antônio Conselheiro pelas vilas esquecidas do sertão.
E para ficar sem respiração diante de cenas de terror protagonizadas por homens como Pajeú, Taramela, João Abade e João Grande, movidos a honra e vingança.
A Guerra de Canudos ocorreu durante a mudança do sistema de governo, da Monarquia para a República. Antônio Conselheiro, que já tinha fama de santo pelas vilas do sertão, orientou o seu povo a não pagar impostos ou usar a moeda nova.
O motivo de não concordar com a República é devido à instituição do casamento civil. Na opinião do Conselheiro, o casamento só poderia ser reconhecido pela igreja.
Mas, o que poderia ser tratado pelo governo republicano como um caso de fé e loucura, ganha uma nova dimensão quando forças políticas se aproveitam da situação para conquistar o poder no Brasil, transformando o conflito em uma guerra de interesses envolvendo, inclusive, outros países.
Antônio Conselheiro, com o objetivo de proteger o seu povo, constrói uma cidade fortificada – Canudos – e organiza um exército de esfarrapados, fiel e disposto a morrer pela causa santa.
Nada muito diferente do que ocorre ainda hoje em outros países, mas saber que aconteceu no Brasil, onde costumamos nos referir ao povo como pacífico, é meio surreal.
Após a leitura do livro, eu questionei o motivo da Guerra de Canudos não ter um espaço maior de discussão nas salas de aulas e a falta de livros sobre o assunto.
Foi uma batalha sangrenta, com milhares de mortos e parece não ter ganhado a relevância merecida. Talvez, por ter ocorrido em um lugar miserável e os mortos já estarem meio mortos quando tudo ocorreu. O que em minha opinião está longe de ser uma boa justificativa.
O autor começou a escrever esse livro em 1977, depois do sucesso com o romance “Tia Julia e o escrevinhador”, e terminou apenas em 1980.
Em vez de usar memórias para compor uma história de forte veia cômica, ele decidiu recontar a dramática história da Guerra de Canudos, impressionado pela leitura, alguns anos antes, de “Os Sertões”, de Euclides da Cunha.
Para escrever o livro, Llosa fez exaustivas pesquisas em arquivos históricos e viagens pelo sertão brasileiro.
O resultado é um livro inesquecível, um épico moderno sobre Antônio Conselheiro e um dos conflitos mais sangrentos da história brasileira.
Após ler o livro você vai perceber que o "fim do mundo" é logo ali.