quarta-feira, 25 de maio de 2016

Livro | O caminho estreito para os confins do Norte, de Richard Flanagan


Não é um livro sobre a Guerra. Tão pouco é uma história de amor. Eu diria que é um livro poético.
Conta a história de um cirurgião e oficial- comandante australiano Dorrigo Evans, um dos milhares de prisioneiros de guerra do exército japonês, que foi forçado a trabalhar na construção da Ferrovia da Morte, entre a Tailândia e a antiga Birmânia, durante a 2ª Guerra Mundial.
“Ele não acreditava em virtude. Virtude era a vaidade bem vestida e esperando aplauso. (Pág. 60”.


Antes de partir para a guerra, Dorrigo vive um caso de amor com a esposa do seu tio, chamada Amy (Amy. Amie. Amour).
“Dorrigo lia livros. Não gostava de nenhum. Percorria as páginas a procura de Amy. Ela não estava lá (Pág.112)”.
Os capítulos 17 e 18, que descrevem a primeira relação sexual dos dois em uma praia deserta, cercada por dunas, são lindos e devem ter sido escritos em um momento de muita inspiração.

A cena em que Amy machuca a perna no arame farpado, de uma forma delicada, consegue demonstrar toda a tensão entre os dois.
“...três camélias continuavam a brotar. O corpo dela era um poema impossível de memorizar”.. (Pág. 133)
“Tudo o que os mantivera apartados, tudo que havia contido seus corpos antes, agora se fora. Se a terra girava, ela titubeou, se o vento soprava, ele aguardou”. (Pág. 135)
Aliás, além de frases lindamente escritas, pequenos poemas de Basho aparecem em vários capítulos do livro, como diz em uma das páginas do livro: “ajudando a levar a beleza e a sabedoria ao vasto mundo”.
“Mas qual realidade foi feita algum dia por realistas?” (Pág. 31)
Basho, como eu fiquei sabendo, foi um importante poeta japonês, que criou uma forma de poesia conhecida como Haikai, que inspirou alguns poetas brasileiros, como Paulo Leminski e Carlos Drummond de Andrade.
“Um mundo de sofrimento... se a cerejeira floresce, ela floresce.” (Pág. 284)
Além de Basho, o autor faz referência a vários livros durante passagens importantes da história. É quase uma homenagem a literatura. Eu adorei isso.
Por exemplo, Dorrigo conhece Amy em uma livraria e lê para ele vários trechos de poemas do livro a Odisseia de Homero.
O livro também descreve as cenas de violência ocorridas durante o tempo em que Dorrigo Evans e foi prisioneiro de guerra, obrigado a trabalhar como escravo na obra da conhecida Ferrovia da Morte.
Como era médico, ele luta para salvar os seus comandados da fome, do cólera e dos rigores da escravidão.
“O mundo é. Apenas é.” (Pág. 204)
É interessante saber que o pai do autor foi um dos sobreviventes da construção da estrada de ferro e que ele morreu no mesmo dia em que Flanagan terminou de escrever esse romance.
“A forma mais elevada da vida é a liberdade: um homem ser um homem, uma nuvem ser uma nuvem, bambu ser bambu”. (Pág. 294)
São muitos os prisioneiros citados no livro e, em algum momento, precisei retornar algumas páginas para lembrar a história de cada um deles.
Um deles é Rabbit Henridricks, que pinta as cenas das torturas sofridas no campo em um caderno de desenho para que as pessoas recordem o que houve com os prisioneiros.
“A memória é a verdadeira justiça”. (Pág. 239)
No final da guerra, Dorrigo é considerado mais do que um sobrevivente, um herói de guerra, mas as lembranças dos acontecimentos não o abandonam, assim como a lembrança de Amy.
“O amor são dois corpos com uma alma”. “Ele continuaria no inferno porque o amor é isso também” (Págs. 429 e 430).
Uma história assim não desaparece de nós quando viramos a última página, ela se mantém viva por um tempo maior.