segunda-feira, 27 de março de 2017

A idade da discrição




No final do mês de dezembro, eu tirei alguns dias de férias e mergulhei no mundo maravilhoso dos livros. Já estava mesmo na hora porque a pilha de livros estava grande, sempre que olhava para ela me lembrava da torre de Babel.
Passar perto dela para dar aquela empurradinha, só para garantir que não fosse cair, estava virando quase um costume, kkkk.

Você deve pensar, mas porque você não tirava os livros da pilha ao invés de ter o trabalho de arrumá-la diariamente?
Ora, cada louco com as suas loucuras!
Tem gente que sente que precisa tirar férias quando começa a miar igual a um gato ou guardar o celular na geladeira, no meu caso, é o acúmulo de livros não lidos.
Quando percebo que a pilha de livros está muito alta, eu sei que é hora de tirar férias.
Desculpa se me alonguei muito na explicação, a ideia deste post não é falar sobre minhas manias e etc.
Aliás, ficar ressaltando isso dá uma pinta danada da minha idade. 42 anos. Jovem que é jovem não escreve, abrevia.
Coisa que, aliás, eles estão muito certos ao fazer, nós devemos seguir o ritmo do nosso tempo para não sermos deixados para trás.
Por falar sobre o ritmo do tempo, eu tenho algumas amigas que para aliviarem o peso da idade ao chegar aos quarenta anos, escrevem: - Uhuuuu... 4.0!
Demorei alguns segundos para entender que pontinho era esse entre o 4 e o zero.
Mas, depois entendi que estavam tentando se equiparar ao motor de um carro e mostrar que estão mais turbinadas do que nunca.
É uma atitude otimista, sem dúvida. Bacana isso. Eu também vou adotar essa ideia.
Quando atingir 5.0 eu vou ser tipo “Velozes e Furiosos”!  
Não é incrível envelhecer com otimismo! Não apenas incrível, corrijo, mas completamente necessário.   
Ficar velho e ainda por cima chato é pior do que ter que cumprir a promessa dos outros.
Esse assunto foi muito bem tratado por Simone de Beauvoir, aliás, como essa danada escreve bem! Eu sou fã de carteirinha.
Já visitei até o túmulo dela em Paris. Fui até lá por acaso, mas quase morri de emoção ao encontra-la ali. Ou melhor, encontrar o túmulo dela.
Escrevi até um bilhetinho e prendi com uma pedra para garantir que não voasse.
O que eu escrevi? Nada demais. Apenas o meu nome para o dia em que nos encontrarmos, quero muito ser amiga dela nem que seja no alto e além.
Como disse antes, cada louco com as suas loucuras.
Mas, enfim...
Beauvoir lançou o livro “A Mulher Desiludida”, em 1967, pouco antes de completar 60 anos de idade e nele publicou três contos incríveis: A idade da discrição, Monólogo e a Mulher Desiludida.


O que mais tocou o meu coração foi o conto que tem o mesmo título desta crônica: A idade da discrição.
Quando comecei a ler este conto, cheguei a pensar que se tratava um pouco da história de Simone e Sartre, com alguns toques diferentes pra não deixar tão explícito.  
Na última capa do livro, ela explica que não. Diz que procurou transmitir aos leitores algumas experiências das quais participou de forma indireta, que havia recebido confidências de muitas mulheres de cerca de 40 anos, abandonadas pelos maridos.   
Mas, esse papo de solidariedade feminina não me convenceu muito, por isso, quando nos encontrarmos vou perguntar a ela.  
Vou falar um pouquinho deste conto. Ele narra a história de um casal de intelectuais maduros, ambos de esquerda, em conflito com as posições cada vez mais conservadoras do filho, Philippe.
A história é bacana, o que eu gostei mais foi dos diálogos entre o casal, quando tentam consolar um ao outro mostrando as vantagens de envelhecer.  
No início, o marido está mais desanimado e é consolado pela esposa.

- Perde-se mais do que se ganha. Verdadeiramente, não vejo o que se ganha. Você pode me dizer?
- É agradável ter atrás de si um longo passado.

Tem outro diálogo muito forte:

- ... Não vejo o que se perde envelhecendo.
Ele sorriu:
- A mocidade.
- Não é um bem em si.
- ... A seiva, o fogo, que permite amar e criar. Quando se perde isso, perde-se tudo.

Mas, após os conflitos com o filho e ter um livro rejeitado pela crítica, que a acusa de falta de originalidade, os papéis se invertem, a esposa fica desanimada e passa a acreditar que a partir dos 60 anos a pessoa está condenada a se repetir.  

- O que vai fazer então?
- Nada... Bruscamente, é o vazio.
- Compreendo que esteja aborrecida... De repente, um dia, uma ideia virá.
- Veja como se é otimista quando se trata do outro.   

Os dois seguem neste ritmo desencontrado até o finalzinho, quando decidem abrir os corações cansados e falar com franqueza sobre as manias, medos e aborrecimentos que surgiram com a velhice.  
É como se tivessem se reencontrando num tempo de total lucidez.

- Não olhemos muito longe.
- Você tem razão.

Sempre digo que tem sorte quem consegue envelhecer. Com tantas doenças e colapsos nervosos da natureza é uma verdadeira sorte chegar a “idade da discrição” com saúde e um amor para chamar de seu.
Mas, nem todos que chegam nesta fase da vida conseguem observar a sorte que possuem, se prendem em uma teia de reclamações e passam os dias se queixando de dor aqui e acolá e se concentram nas perdas que tiveram pelo caminho, em alguns casos, a lista é extensa.
Outros vivem como se já tivessem morrido mesmo estando com plena saúde.
Relaxam na higiene, agem como se não tivessem que respeitar os outros e passassem a ter autorização para serem mal criados e folgados, abusando daqueles que estão ao redor.  
Em uma parte do livro, quando a esposa está questionando a mudança de comportamento do marido, que passa a ser mais otimista, ele explica:

- Não quero ser um velho chato. Velho, tudo bem, chato, não.

Eu achei essa frase ótima, daquelas que eu quero levar para o futuro, se tiver a sorte de chegar aos 60, ou melhor, 6.0.
Ninguém vai segurar essa velhinha aqui, kkkk