segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

O Peixe está Vivo


Por Daniela Carvalho

Há poucos meses, em viagem de férias, eu reservei alguns dias para conhecer Brasília, a capital do país.
Eu já tinha visitado esta cidade a trabalho e encontrado todo tipo de defeito, o clima era seco demais, as pessoas esquisitas, mas acho que era eu me sentindo um peixe fora d’água.
Dessa vez, mais relaxada, pude perceber que Brasília é uma cidade linda.

Quem conhece a capital do país e decide explorar um pouco a sua história logo se depara com uma grande figura: Juscelino Kubitschek.
Nos prédios mais simbólicos há uma placa com o nome dele, assim como ruas, pontes, museu...
É difícil criar um juízo sobre alguém que só conhecemos de ouvir falar, eu não tenho essa pretensão, mas não fiquei imune ao charme desse presidente.
Para alguns é um visionário, corajoso e responsável pela integração do Brasil, outros o acusam de louco e irresponsável, culpado pela dívida externa. Não há unanimidade quando o assunto é JK.
Mas, pode dizer o que quiser, não há como negar que o cara era peitudo. Tinha colhões, como dizem por aí quando alguém tem coragem de ir até fim, superando as adversidades para transformar o seu sonho em realidade.
Você já imaginou o que é ser o responsável pelo êxodo de milhares de pessoas, que deixaram o Rio de Janeiro, a cidade maravilhosa, para viver em um dos lugares mais inóspito do país?
Ele fez isso e sofreu uma enorme pressão, mas não sucumbiu, foi em frente com o seu plano de fazer o país se desenvolver em 5 anos, o que não tinha conseguido em 50.
É de imaginar que uma pessoa com tantos inimigos (acredito que a maioria carioca, o que seria totalmente justificável!), metas divididas entre difícil e “quase” impossível e muitas contas a pagar fosse um homem sério e carrancudo, não é?
Mas, veja só, Juscelino era um fanfarrão. Gostava de música, poesia e sabia curtir a vida ao lado dos amigos e da família. Ele era conhecido como o presidente “pé de valsa” e sua música preferida era "Peixe Vivo", de Milton Nascimento.

“...Como pode um PEIXE VIVO viver fora d’água fria..” Lembra?

O que me levou a recordar disso tudo foi justamente a notícia de que a atual administração de São Sebastião, em uma decisão muito acertada, no meu ponto de vista, decidiu voltar a usar a imagem do Peixe, criada pela artista plástica Leslie Amaral, como símbolo turístico de São Sebastião.
O Peixe está Vivo e hoje ele simboliza algo muito importante para o povo da minha cidade. É a lembrança de um passado não muito distante, quando o município foi escolhido para ser um dos pontos de parada dos velejadores da regada Whitbread, um dos eventos mais bacanas do mundo.
Quem viveu aqueles dias, sabe do que estou falando.
Eu lembro que a cidade vibrava, nunca tinha ouvido tantos sotaques diferentes e não aguentei de orgulho quando soube que o rei e a rainha da Suécia tinham dado o ar da graça nas terras sebastianenses.
Além de me fazer recordar dias tão felizes, quando eu soube que o Peixe seria novamente o símbolo do nosso município confesso que senti esperança.
A maioria se recorda de que esse símbolo foi usado na administração do ex-prefeito Juan Garcia e depois desapareceu, acho que o governante seguinte decidiu deixa-lo na geladeira.

Mas, o Peixe nunca foi esquecido.

Posso ser uma sonhadora, ou melhor, eu sou uma sonhadora e quero acreditar que isso signifique o fim de uma época, onde as brigas políticas por picuinhas, responsáveis por tantos atrasos no desenvolvimento da minha cidade, tenham ficado no passado.
O Peixe está Vivo. Espero que isso tenha sido uma das formas do atual governo comunicar que vai administrar a cidade pensando no melhor para o povo e não olhando apenas para os seus adversários.
Espero que seja mais do que uma boa notícia, um gesto de paz. A luta política já dividiu essa cidade por tempo demais, precisamos de uma trégua.
Eu sempre senti orgulho por ser sebastianense, mas confesso que gostaria de voltar a sentir a minha cidade vibrar de alegria e o peixinho acendeu algo dentro de mim, uma luz de esperança.
Espero que a volta do Peixe seja também o início de um tempo de mais respeito e harmonia entre todos nós.

PS: Crônica publicada no Jornal SSIN!