sexta-feira, 10 de março de 2017

Mulher e a crença do machismo



Por Giobert M. Gonçalves

 
Encontrei uma amiga outro dia e conversávamos sobre as nossas relações amorosas, lá pelas tantas ela diz que o marido não ajudava em casa. Quando alguém diz algo nesse tom comigo sai como um berro: como ele não ajuda! Será que ele precisa ajudar a mulher com as coisas na casa onde ele mora? Que falta de foco é essa? Lá ele não ajuda mesmo porque, na verdade, é obrigação dele. E depois as mulheres lutam pela igualdade! 

Mas as velhas crenças estão tão entranhadas na cultura, nos comportamentos e na consciência que a gente nem se dá conta. O correto seria ela dizer com consciência: ele não cumpre com a parte dele em casa!
Depois disso, no ônibus, me coloquei a ouvir a conversa de duas mulheres. Uma dizia sobre o comportamento de certo sujeito, parece que no trabalho, e soltou a pérola: não existem mais cavalheiros atualmente! E sei que ela estava se referindo ao contexto cavalheiro e dama. Oras, se me colocar no lugar da dama, minha representação interna vai mostrar uma mulher frágil, delicada e que precisa de cuidados ou vantagens. É isso uma mulher? É isso que se quer? Acho que não quando falamos de igualdade. Então, talvez o comentário correto fosse apenas: não existem mais pessoas educadas atualmente!
Mais um pouco e vi um post gracinha no face de um pai que ficou tomando conta do filho. O pai estava com o bebê em um porta bebês (não sei se o nome é esse – são aqueles apetrechos de carregar o bebê como uma mochila, só que na parte da frente) e, ao som de Michael Jackson em Billy Jean, fazia do bebê um marionete imitando os passos da dança. Claro que o pai estava se divertindo e o bebê também! Mas o texto do post era em tom de “um pai não sabe cuidar de uma criança”. E novamente grita a crença e o machismo reverso. O certo não seria rir junto e se divertir também? Ou será que as meninas brincaram tanto de bonecas que quando adultas elas se esqueceram da brincadeira e começaram a se levar muito a sério? Pai, você estava ótimo!
Aí ouço outra conversa, no ônibus é claro, de duas garotas falando de uma terceira na noite anterior:

- Você viu a vagaba? Ficou se oferecendo pro cara.
- Se eu fosse você teria zoado ela. Você estava a fim dele também e eu não tinha deixado.
- Ela é bagaceira mesmo, toda oferecida.

Fala sério! É isso mesmo? Duas mulheres criticando uma mulher do próprio comportamento de emancipação feminina de ser dona da sua própria vontade? Ou de agir de maneira livre e fazer o que estava com vontade? Eu poderia dizer: e se fosse um homem? Sinto muito, mas não vou dizer por que eu estaria sendo machista usando a desculpa de um discurso incoerente. Dizer que isso é uma coisa que o homem pode fazer e uma mulher não pode é confirmar papéis.
Poderia ficar lembrando diversas situações complexas e que mostram o machismo, e dizendo melhor, o preconceito generalizado de crenças antigas que nos acompanham por conta da nossa cultura, nossos comportamentos e da nossa consciência, mas não preciso fazer isso. Basta lembrar apenas uma coisa: a gente morre! E com a gente morre aos poucos, deixando rastros de tempo que vão se apagando, nossas crenças e preconceitos. Ainda bem que a gente morre!