quarta-feira, 5 de abril de 2017

Reflexões no laboratório

Por Isabel Galvanese

Essa semana tive que fazer alguns exames de rotina em São Paulo. Um preparo chatíssimo, fiquei mais de dois dias nesta função. Filas para marcar hora, espera com senha, elevador lotado, estacionamento caro, pessoas com a cara super triste, sorriso forçado das recepcionistas. Tudo junto…e mais um pouco.
O que mais me impressionou foi a falta da natureza na vida das pessoas. Fiquei pensando o valor que tem ver o mar diariamente, o sol, a mata, os pássaros que mesmo sem perceber- eu garanto!- invade nossa vida e nos traz saúde.
Senti falta de uma janela, um vaso, um vento, uma flor. O laboratório era totalmente artificial, luz de lâmpada, ar de ar condicionado, sorriso treinado, móveis planejados, circuitos pensados. Tive a impressão que eu e meus colegas de exame éramos bois indo para o abate, não tínhamos como fugir, embora eu tenha pensado na hipótese, estava tudo pré determinado.
Olhei para a senhora japonesa ao meu lado, frágil , triste, com um acompanhante com certeza contratado, não era alguém com que ela se relacionava. Ao lado dela um jovem, cara de surfista saudável, com seu pai junto, quietos desconfortáveis. Observei mais amplamente e vi todos, com a cabeça inclinada à 45º, grudados ao seu melhor amigo: o celular.
Fiquei pensando, e se aqui tivesse um jardim de ervas naturais, e um pianista tocando, e uma janela que pudéssemos abrir e fechar e falar sobre o tempo? Aliás, lá não tinha tempo, não podíamos saber se tinha sol ou chuva, motivo para o começo de uma conversa. Não, não tinha conversa.


Está tudo errado!
Fechei os olhos: sou agora uma médica revolucionária .

Receito primeiro:

- um banho de mar,

- um banho de chuva,

- cheirar um jasmim toda manhã,

- deitar debaixo de uma árvore frondosa,

- ver o sol nascer e o sol se por.

- Plantar algum vaso e acompanhar seu crescimento.

Depois de um mês, no retorno, a conversa é outra. 90% das pessoas não se lembram do motivo da primeira consulta.

Aos 10% restantes aconselho:

- encontro com amigos em que é importante evitar reclamações e escutar mais que falar.

- Fazer feira com tempo de sobra

- e pasmem, comer pastel olhando para o mar às 10h da manhã.

Aí, nova consulta sobram 2 %.

Para esses eu receito alguns exames sem antes escutar de olhos fechados a suite para cello de Bach por Pablo Casals.

Incluo também a leitura do " O filho de mil homens" do Valter Hugo mãe.

Tem 1% de pacientes insistentes que me tiram a paciência . Casos graves!

Não tenho alternativa e receito meu atidepressivo tarja preta mais potente : Viajar!

- Meu caro, roda esse mundo e retorne daqui a um ano!

Nunca mais os vi .